CAPÍTULO 17: A APROVAÇÃO DE SÔNIA NA FACULDADE E A ALEGRIA QUE ILUMINOU O MORRO
O verão de 1983 foi o mais esperado da família. Sônia, com dezoito anos, tinha feito o vestibular para a faculdade de Enfermagem da Universidade Federal Fluminense (UFF) – o único curso público de enfermagem da região, e a única chance que ela tinha de estudar superior sem pagar caro. Os dias passaram como uma eternidade enquanto esperavam o resultado. Sônia passava horas estudando ainda mais, com medo de não ter conseguido; Alayde rezava todos os dias na igreja do morro; Luiz, que já tinha recuperado a perna e voltado à obra, trazia jornais todos os dias para ver se o resultado havia saído.
Um dia de junho, Carlos voltou da base do morro com um jornal em mãos, correndo e gritando: “Sônia! Sônia! O resultado saiu!” Toda a família se reuniu na sala da casa, e Sônia pegou o jornal com mãos tremidas. Ela virou as páginas até chegar à lista de aprovados da UFF – e ali, no meio de centenas de nomes, viu: “SÔNIA MARIA SILVA JARDIM – APROVADA”.
No primeiro momento, ela não conseguiu falar – só chorou, com lágrimas de alegria que corriam pelo rosto. Alayde abraçou-a com força, chorando também: “Minha filha! Você conseguiu! Eu sempre soube que conseguiria!” Luiz agarrou a filha e beijou a testa dela, com os olhos cheios de lágrimas – a promessa que ele tinha feito no dia do seu nascimento, de que ela aprenderia a ler e teria uma vida melhor, estava cumprida. Carlos pulou de alegria e abraçou a irmã: “Você é a primeira da família a entrar na faculdade! Que orgulho!” Elizabeth pegou o jornal e leu o nome de Sônia diversas vezes: “Sônia, você vai ser a melhor enfermeira do mundo. E vai ajudar todo mundo do morro”. Ricardo, com dez anos, correu até a irmã e deu-lhe um beijo: “Parabéns, irmã! Vou estudar muito para ser como você”.
A notícia se espalhou pelo morro como fogo em mato seco. Os vizinhos vieram parar na casa de Luiz e Alayde para dar parabéns – Dona Maria trouxe um bolo de coco, Sr. Antônio trouxe uma garrafa de suco de acerola, e outros trouxeram arroz e feijão para um jantar comunitário. Naquela noite, todo o morro se reuniu na praça próxima à poça de água para comemorar. Sônia foi convidada para falar, e disse, com voz emocionada: “Eu não conseguiria isso sem os meus pais, que trabalharam duro todos os dias, e sem a comunidade do morro, que sempre nos ajudou. Quero usar o que aprender para ajudar a todos vocês – para que ninguém tenha que passar por crises de asma sem médico, para que todos tenham acesso à saúde”.
Os aplausos foram enormes, e um dos moradores, que tinha uma guitarra, começou a tocar músicas populares. Alayde dançou com Luiz – a primeira vez em anos que eles dançavam juntos – e ela sentiu que a asma tinha desaparecido, que a coluna não doía mais. “Hoje é o melhor dia da minha vida”, disse ela a Luiz. “Nossos sacrifícios valeram a pena”. Luiz sorriu: “Ainda tem mais dias bons pela frente, meu amor. Os filhos estão só começando”.
Na semana seguinte, Sônia foi matricular-se na faculdade. Luiz e Alayde foram com ela – foi a primeira vez que eles entravam em uma universidade. Eles olharam para os prédios altos, para os alunos com livros na mão, e sentiram uma emoção que não podiam explicar. Sônia matriculou-se no curso, e o funcionário da secretaria deu-lhe um pacote com livros e materiais. Quando saíram da universidade, Sônia abraçou os pais: “Eu prometo estudar muito. Para vocês, para o morro, para todos”. Luiz agarrou os livros com cuidado – eles eram pesados, mas para ele, eram mais leves que a esperança que eles traziam.
CAPÍTULO 18: O PRIMEIRO EMPREGO DE CARLOS E A CHEGADA DA PRIMEIRA NETA
Enquanto Sônia começava os estudos na faculdade, Carlos, com dezesseis anos, estava terminando o curso de Técnico em Eletrônica em uma escola técnica pública. Ele tinha estudado duro todos os dias, após o colégio, e tinha um dom especial para consertar aparelhos – já consertava rádios e televisores dos vizinhos do morro para ganhar um dinheiro extra. Um dia, ele viu um anúncio de emprego em uma loja de eletrônicos no centro de Niterói: “TÉCNICO EM ELETRÔNICA – VAGA PARA INICIANTE”. Ele resolveu tentar, mesmo com medo de não ser aceito.
A entrevista foi no dia seguinte. Carlos vestiu a única roupa social que tinha – uma camisa de gola e calças pretas que Alayde tinha consertado – e foi até a loja. O dono da loja, Sr. João, perguntou sobre seus estudos e suas experiências. Carlos contou sobre os aparelhos que consertava no morro, e Sr. João pediu que ele consertasse um rádio que estava quebrado. Carlos consertou-o em menos de dez minutos, e Sr. João sorriu: “Você tem talento. Começa na semana que vem – salário de R$ 150 por mês, e horário de 8 às 18 horas”.
Carlos voltou ao morro correndo e gritou a notícia na porta da casa: “Papai! Mamãe! Eu consegui o emprego!” Luiz e Alayde saíram correndo e abraçaram o filho. “Meu filho, você é um homem agora”, disse Luiz, com orgulho nos olhos. “Conseguiu o primeiro emprego formal da família”. Alayde chorou de alegria: “Você vai conseguir tudo o que quiser, Carlos. Eu sempre soube”.
O primeiro dia de trabalho de Carlos foi um dia de grande emoção. Ele vestiu a roupa social, pegou o ônibus para o centro e chegou à loja com dez minutos de antecedência. Sr. João mostrou-lhe o local de trabalho e os aparelhos que precisavam ser consertados. Carlos trabalhou com dedicação, e no final do dia, Sr. João disse: “Você está fazendo um ótimo trabalho, Carlos. Vou aumentar o seu salário daqui a três meses”.
Na mesma semana, Sônia anunciou uma notícia que deixou toda a família emocionada: estava grávida. “Vamos ter uma neta!”, disse ela, olhando para os pais. Alayde abraçou-a com força: “Minha primeira neta! Eu vou cuidar dela todos os dias!” Luiz sorriu: “Nossa família está crescendo. Que felicidade”. Carlos prometeu consertar um berço de bebê que tinha encontrado em uma feira, e Elizabeth prometeu escrever histórias para a neta. Ricardo, com onze anos, disse: “Eu vou ser o melhor tio do mundo!”
Os meses seguintes foram cheios de alegria e preparativos. Carlos consertou o berço e pintou-o de azul claro; Alayde fez roupas de bebê com pano sobrante; Elizabeth escreveu uma história chamada “A Menina do Morro e o Mar”; e Sônia continuou os estudos na faculdade, com a ajuda dos irmãos que ajudavam com as tarefas da casa.
Em março de 1984, Mariana – a primeira neta – nasceu. Luiz e Alayde foram ao hospital para ver a bebê, e quando Luiz segurou ela em seus braços, sentiu uma emoção que nunca tinha sentido antes. A neta tinha cabelos castanhos e olhos castanhos, igual a Sônia. “Ela é perfeita”, disse ele, beijando a testa da bebê. Alayde agarrou a neta e chorou: “Minha pequena Mariana. Você vai ter uma vida cheia de amor e oportunidades”.
Na volta ao morro, todos os vizinhos estavam esperando para dar parabéns. A casa estava decorada com flores, e Dona Maria trouxe um bolo de chocolate. Sônia colocou a bebê na berço que Carlos tinha consertado, e toda a família se reuniu ao redor dela. Luiz olhou para a neta, para os filhos, para Alayde, e pensou: “Tudo o que nós fizemos – a luta, a casa, os sacrifícios – foi para isso. Para ver a nova geração crescer, feliz e com esperança”.
CAPÍTULO 19: A FORMATURA DE ELIZABETH COMO PROFESSORA E O GRUPO DE LEITURA QUE UNIU O MORRO
Enquanto Mariana crescia, rindo e brincando pelo morro, Elizabeth estava terminando o curso de Letras na UFF – ela tinha conseguido aprovação no vestibular dois anos após Sônia, graças ao apoio da família e aos livros que emprestava da escola. Seus dias eram corridos: estudava pela manhã, ajudava a cuidar de Mariana à tarde, e à noite, lia para os irmãos e para os vizinhos que queriam aprender a decifrar palavras. “A leitura é a chave para o mundo”, dizia ela sempre. “Quem sabe ler, nunca está só”.
A formatura foi em dezembro de 1989 – um dia de sol quente, com toda a família presente. Elizabeth vestiu a toga preta e a barra vermelha, e quando subiu ao palco para pegar o diploma, viu Luiz e Alayde no primeiro fileira, chorando de alegria. Carlos filmava tudo com uma câmera que tinha consertado e comprado com o salário do trabalho; Sônia estava com Mariana no colo, e a pequena batia as mãos; Ricardo, com dezesseis anos, gritava “Parabéns, irmã!” tão alto que todos ao redor olharam.
Ao receber o diploma, Elizabeth falou em seu discurso: “Eu devo tudo isso aos meus pais, que nunca aprenderam a ler, mas que sempre souberam o valor da educação. E aos moradores deste morro, que me ensinaram que a comunidade é mais forte que qualquer obstáculo. Hoje, sou professora – e minha primeira tarefa é ensinar a ler e a escrever a todos os que querem aprender, aqui mesmo no morro”. Os aplausos foram enormes, e Luiz se levantou e gritou “Minha filha! A melhor professora do mundo!” – algo que nunca tinha feito em público, tão tímido que era.
Na semana seguinte, Elizabeth anunciou a criação do “Grupo de Leitura do Morro”. Ela alugou um espaço pequeno na base do morro – uma sala vazia que um vizinho deixou de graça – e pediu livros emprestados à escola onde trabalhava e à biblioteca pública. Os primeiros dias foram difíceis: poucas pessoas apareceram, com medo de não saber ler, de ser ridicularizadas. Mas Elizabeth foi paciente – ela convidou as mulheres do morro para tomar chá e falar de histórias, convidou as crianças para brincar de “adivinhar letras”, e aos homens, para ler jornais sobre futebol e obras.
Rápido, o grupo cresceu. Alayde foi uma das primeiras a participar – ela queria aprender a ler para entender as cartas que Mariana escrevia quando crescesse. “Eu quero ler a história que Elizabeth escreveu para ela”, disse ela, com lágrimas nos olhos. Luiz também se juntou – ele queria aprender a escrever seu nome direito, para assinar contratos de obra e não mais ser enganado por patrões. “A minha filha vai me ensinar o que eu nunca aprendi”, disse ele, sorrindo.
Um mês depois, o grupo de leitura já tinha mais de trinta participantes. Elizabeth ensinava com paciência, usando histórias que refletiam a vida do morro – sobre trabalho, amor, luta e esperança. Uma tarde, Alayde conseguiu ler a primeira frase de um livro: “A casa é feita de amor”. Ela parou, olhou para Elizabeth e chorou: “Eu consegui! Filha, eu consegui ler!” Todos aplaudiram, e Luiz abraçou-a: “Você é a mulher mais forte que eu já conheci”.
Na noite de Natal de 1989, o grupo de leitura organizou uma apresentação: as crianças leram histórias que tinham escrito, as mulheres cantaram músicas que tinham aprendido, e os homens leram frases sobre o que o morro significava para eles. Mariana, com cinco anos, leu a história que Elizabeth tinha escrito para ela: “A Menina do Morro e o Mar”. Quando terminou, toda a sala ficou em silêncio, depois explodiu em aplausos. Luiz olhou para Elizabeth, para Alayde, para os filhos e para a neta, e pensou: “Nós construímos uma casa de madeira e barro, mas Elizabeth construiu algo maior – um lugar de palavras e esperança, que vai durar para sempre”.
CAPÍTULO 20: O DESAFIO DE RICARDO E A FORÇA DA FAMÍLIA JUNTA
Enquanto Sônia trabalhava como enfermeira no centro de Niterói e Elizabeth lecionava no morro, Ricardo, o caçula, estava passando por um momento difícil. Tinha dezoito anos, e ao contrário dos irmãos, não sabia o que queria fazer da vida. Ele tinha tentado cursar Técnico em Mecânica, mas abandonou – não conseguia se adaptar ao horário e sentia que não era o que queria. Tentou trabalhar em obras com o pai, mas a fraqueza nos pulmões não permitia – ele ficava sem ar depois de pouco tempo de esforço. “Eu não sou forte como o pai, não sou inteligente como as irmãs”, disse ele um dia, sentado na porta da casa. “O que eu vou fazer da minha vida?”
Luiz percebeu a tristeza do filho e resolveu falar com ele. Um sábado de manhã, eles foram caminhar até a poça de água, um lugar que sempre tinham gostado de ir juntos. “Você não precisa ser como nós, meu filho”, disse Luiz, sentando-se em uma pedra. “Cada pessoa tem o seu caminho. O meu foi a madeira, o de Sônia foi a saúde, o de Carlos foi a eletrônica, o de Elizabeth foi as palavras – o seu vai ser algo que só você sabe”. Ricardo olhou para o pai: “Mas eu não sei o que é, papai. Eu me sinto inútil”. Luiz abraçou-o: “Ninguém é inútil, meu amor. Você tem um coração grande, e isso vale mais que qualquer profissão”.
Na semana seguinte, Ricardo resolveu ajudar Elizabeth no grupo de leitura. Ele começo a ajudar as crianças a escrever histórias, a arrumar os livros e a preparar o espaço para as aulas. Aos poucos, ele percebeu que gostava de trabalhar com crianças – de ver elas sorrir quando aprendiam uma nova letra, de ajudar elas a encontrar a sua voz. “Eu gosto de fazer as crianças felizes”, disse ele a Elizabeth. “Talvez eu possa trabalhar com isso”.
Elizabeth sorriu: “Você tem um dom com elas, irmão. Por que não cursar Pedagogia? Para ser professor também, e ajudar meus”. Ricardo ficou indeciso – tinha medo de não conseguir passar no vestibular, de não ser bom o suficiente. Mas a família se uniu para ajudá-lo: Sônia ajudava com as matérias de ciências, Carlos com matemática, Elizabeth com português, e Luiz e Alayde rezavam e incentivavam todos os dias. “Você consegue, Ricardo”, disse Alayde, acariciando a cabeça do filho. “Nós temos fé em você”.
Ricardo estudou duro por um ano – acordava às 5 da manhã para estudar antes de ajudar Elizabeth no grupo de leitura, e estudava até tarde da noite. Um dia, ele fez uma prova simulada e conseguiu uma nota boa. “Eu posso conseguir”, disse ele, com esperança nos olhos. A família comemorou, e Carlos prometeu comprar um livro de matemática novo para ele. “Você vai passar no vestibular, irmão. Eu sei”, disse ele.
Mas no dia da prova do vestibular, Ricardo teve uma crise de asma grave. Ele chegou à sala de prova com dificuldade para respirar, e durante a prova, a crise piorou. Ele tentou continuar, mas não conseguiu – teve que sair da sala e ir ao hospital. Quando chegou em casa, triste e desanimado, disse: “Eu falhei. Não consigo fazer nada direito”. Alayde abraçou-o: “Não falhou, meu amor. A crise foi um susto – você pode tentar novamente ano que vem”.
A família se reuniu e decidiu ajudar Ricardo a se preparar para o próximo vestibular, com mais cuidado com a sua saúde. Sônia, que era enfermeira, fez um plano de tratamento para a asma; Elizabeth ajustou o horário do grupo de leitura para que ele pudesse estudar mais; e Luiz construiu uma pequena sala de estudo na casa, com uma janela que dava para o mar, para que ele tivesse um lugar tranquilo para estudar. “Aqui é o seu espaço”, disse Luiz, entregando a chave da sala. “Para sonhar e conseguir”.
Um ano depois, Ricardo fez o vestibular novamente. Dessa vez, a crise de asma não veio – ele estava calmo, preparado, e com a família torcendo por ele. Quando o resultado saiu, ele viu o seu nome na lista de aprovados em Pedagogia na UFF. Correu ao morro e gritou a notícia na porta da casa: “Eu passei! Eu passei!” Toda a família abraçou-o, e Alayde chorou: “Meu filho! Você conseguiu! Eu sempre soube que conseguiria!” Luiz beijou a testa do filho: “O seu caminho foi mais difícil, mas você foi forte. Igual a nós”.
Naquele momento, Ricardo percebeu que não estava sozinho – a família era a sua força, o seu suporte. E que o seu caminho, mesmo que diferente dos irmãos, era importante. “Vou ser professor para ajudar as crianças do morro, igual a Elizabeth”, disse ele. “Para mostrar a elas que, mesmo com dificuldades, é possível conseguir”.
CAPÍTULO 21: MAIS NETOS, BISAVÓS E A CASA CHEIA DE VIDA
Os anos se desenrolaram como um rio calmo, e a família de Luiz e Alayde cresceu cada vez mais. Em 1992, Carlos se casou com Mariana – uma moça do morro que trabalhava em uma loja de roupas – e um ano depois, sua filha Carla Rafaela nasceu. Alayde segurou a segunda neta em seus braços e sorriu: “Outra pequena princesa. Nossa casa está ficando cheia de amor”. Luiz, que já tinha sessenta anos, construiu uma berço para Carla – igual ao que tinha feito para Carlos, mas com madeira mais resistente e detalhes que ele havia aprendido ao longo dos anos. “Eu quero que ela use isso quando tiver filhos”, disse ele, olhando para a berço.
Em 1995, Elizabeth se casou com João – um professor que trabalhava com ela no grupo de leitura – e sua primeira filha, Sarabeth, nasceu. Luiz e Alayde foram ao hospital para ver a neta, e quando Alayde segurou ela, percebeu que Sarabeth tinha cabelos ruivos e olhos castanhos claros – igual a Elizabeth quando era pequena. “Ela é a cópia da sua mãe”, disse ela a Sarabeth, que deu um suspiro e dormiu. Ricardo, que estava cursando o terceiro ano de Pedagogia, prometeu ensinar a neta a ler quando ela crescesse: “Vou fazer ela amar palavras, igual a tia Elizabeth”.
A casa do morro estava agora cheia de crianças – Mariana (dez anos), Carla (dois anos) e Sarabeth (um ano) corriam pelo piso de terra, brincavam com brinquedos que Carlos consertava e ouvíam histórias que Elizabeth escrevia. Alayde passava horas com elas, contando histórias de Aldeia Velha e de Manhuaçu, ensinando elas a fazer pão de queijo com farinha de mandioca e a cantar músicas populares que ela aprendera na infância. “Eu nunca imaginei ter tanta felicidade”, disse ela a Luiz um dia, enquanto as netas dormiam em seus braços. “Tudo o que nós passamos valia a pena”.
Em 2010, Sarabeth, com quinze anos, anunciou que estava grávida. A notícia foi uma surpresa, mas a família aceitou com amor – Elizabeth abraçou a filha e disse: “Nós vamos ajudar você, filha. Sempre”. Luiz e Alayde ficaram emocionados: iam ser bisavós. “Uma nova geração”, disse Luiz, sorrindo. “O nosso legado vai continuar”. Em novembro daquele ano, Elick – o primeiro bisneto – nasceu. Luiz, com setenta e sete anos, segurou o pequeno bebê em seus braços e sentiu uma emoção que não podia explicar. O bisneto tinha olhos azuis – igual a Ricardo – e cabelos castanhos, igual a Sônia. “Ele é o nosso tesouro maior”, disse ele, beijando a testa de Elick.
Dois anos depois, em 2012, Sarabeth teve outro filho – Italo. E em 2018, a terceira bisneta, Isis, nasceu. Agora, Luiz e Alayde tinham três bisnetos, e a casa do morro estava mais cheia do que nunca. Os finais de semana eram reservados para encontros familiares: todos vinham jantar, as crianças brincavam no quintal que Luiz tinha arrumado, os filhos conversavam sobre o trabalho e a vida, e Luiz e Alayde ficavam deitados na cama, ouvindo o barulho de alegria que enchia a casa.
Um domingo de verão, toda a família se reuniu no quintal. Elick (oito anos), Italo (seis anos) e Isis (dois anos) brincavam com uma bola que Carlos tinha consertado; Mariana, com vinte e cinco anos, estava com o seu próprio filho no colo; Carla, com vinte anos, estudava para o vestibular de Arquitetura; Sarabeth, com vinte e três anos, ajudava Elizabeth a preparar o jantar. Luiz estava sentado em uma cadeira que construíra para Alayde, e ela estava ao seu lado, acariciando a mão dele. “Olha tudo o que nós construímos, Luiz”, disse ela. “Uma família grande, feliz, com sonhos. Isso é o que importa”. Luiz sorriu e olhou para a família: “Sim, meu amor. Nós construímos mais do que uma casa – construímos um lar”.
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