O Sonho que o Amor Construiu

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CAPÍTULO 22: O ATAQUE CARDÍACO DE LUIZ E A LUTA POR ALEGRIA

Em novembro de 1994, quando Luiz tinha sessenta e um anos, ele estava trabalhando em uma obra de edifício no centro do Rio – ainda trabalhava todos os dias, mesmo que os filhos pedissem para ele se aposentar. “Eu não sei ficar parado”, dizia ele sempre. “Trabalhar é o que me faz sentir vivo”. Naquela manhã, ele estava no terceiro andar, carregando uma prancha de madeira, quando sentiu uma dor forte no peito – uma dor que nunca tinha sentido antes, que parecia esmagar seu coração. Ele soltou a prancha e se agarrou a um batente de concreto, sentindo falta de ar. “Ajuda…”, sussurrou ele, e os colegas de obra correram para ele.
João Carlos, que ainda trabalhava com ele, levou Luiz ao hospital público em um táxi – o patrão pagou a corrida, com medo de algo pior acontecer. Os médicos diagnosticaram um ataque cardíaco leve e colocaram um cateter em seu coração. “Você precisa descansar, senhor Luiz”, disse o médico. “Não pode mais trabalhar em obras – o esforço é muito grande para o seu coração”. Luiz ficou desanimado: trabalhar era a sua vida, a sua forma de ajudar a família, de se sentir útil. “E se eu não trabalhar, o que eu vou fazer?” perguntou ele, com voz baixa.
Os filhos foram ao hospital para ver o pai. Sônia, que era enfermeira, explicou que o ataque cardíaco era resultado do esforço de anos de trabalho duro, de falta de descanso e de má alimentação. “Você tem que se aposentar, papai”, disse ela, abraçando-o. “Nós vamos cuidar de você. Você já fez o seu trabalho”. Carlos prometeu aumentar o salário para ajudar a família, e Elizabeth disse que ele podia ajudar no grupo de leitura – “Você pode ensinar as crianças a construir coisas com madeira”, disse ela. “Isso é trabalho, mas sem esforço físico”.
Luiz foi liberado do hospital três dias depois. Os filhos levaram-no para casa, e Alayde estava esperando ele na porta, com lágrimas nos olhos. “Meu amor, você está bem”, disse ela, abraçando-o com cuidado, para não machucá-lo. Luiz sorriu fraco: “Estou bem, meu amor. Mas não posso mais trabalhar na obra”. Alayde acariciou a cara dele: “Não importa. Você tem a família, tem a casa. Isso é o que importa”.
Os primeiros dias em casa foram difíceis. Luiz estava acostado na cama, sem saber o que fazer – sentia-se inútil, sem propósito. Os bisnetos vinham para ver o bisavô: Elick brincava com a mão dele, Italo contava histórias que tinha aprendido na escola, e Isis dormia em seu colo. “Você é o melhor bisavô do mundo”, disse Elick um dia, e Luiz sentiu uma paz que não sentia há tempos. “Talvez eu possa fazer algo para eles”, pensou ele.
Na semana seguinte, Luiz resolveu construir brinquedos para os bisnetos. Ele pegou madeira sobrante de uma reparo na casa e construiu uma carrinha para Elick, uma casinha para Isis e um trem para Italo. Os bisnetos ficaram encantados, e Elick disse: “Bisavô, você é um mago da madeira!” Luiz sorriu: “Eu aprendi com o meu pai, filho. E agora vou ensinar a você”.
A partir daí, Luiz começou a construir brinquedos para todas as crianças do morro. Ele pegava madeira de obra que os colegas deixavam e fazia carrinhos, casinhas, bonecas de madeira. Os vizinhos pagavam o que podiam, mas ele deixava alguns de graça para as famílias mais pobres. “Isso é o meu novo trabalho”, disse ele a Alayde. “Ajudar as crianças a sorrir. Isso é mais importante do que qualquer obra”.
Alayde sorriu e abraçou-o: “Você sempre encontrou uma forma de ajudar. É o que faz de você quem você é”. Na noite, Luiz estava sentado na cadeira do quintal, construindo um brinquedo para Isis, e os bisnetos estavam ao seu lado, observando. Ele olhou para o mar, para a casa que construíra, para a família que amava, e pensou: “O ataque cardíaco foi um aviso. Mas eu não vou deixar que a vida me derrotasse. Vou continuar ajudando, continuar amando, continuar vivendo”.
CAPÍTULO 23: A ÁGUA ENCANADA QUE CHEGOU AO MORRO E A LÁGRIMA DE ALEGRIA DE ALAYDE
Em março de 1996, uma notícia que todos os moradores esperavam há anos chegou: a Companhia de Águas de Niterói estava prestes a instalar tubulações no morro – finalmente, teriam água encanada em casa. Sr. Antônio, que ainda coordenava as ações da comunidade, reuniu todos na praça da poça de água e anunciou: “Daqui a duas semanas, cada casa terá uma torneira com água limpa, sem precisar carregar galões pela encosta”. A multidão explodiu em aplausos e gritos de alegria – algumas mulheres choraram, lembrando dos anos de caminhadas com galões pesados nas mãos.
Alayde estava entre elas, com a mão de Luiz em sua. Ela sentiu uma lágrima rolar pelo rosto – uma lágrima de alegria que não conseguia conter. “Eu não acredito”, sussurrou ela. “Depois de quase trinta anos aqui, finalmente teremos água em casa”. Luiz abraçou-a: “Eu prometi a você que a água chegaria. Lembro-me do dia que compramos o terreno – você estava preocupada, e eu disse que construiríamos tudo. Agora, a água chegou”.
Os dias seguintes foram cheios de movimento. Os técnicos da Companhia de Águas vieram para instalar os postes e as tubulações, e os moradores ajudaram – cavando valas para colocar os tubos, carregando material, orientando os técnicos sobre as casas. Luiz, que já não trabalhava na obra, ajudou a medir as distâncias e a cortar madeira para proteger as tubulações de pedra e mato. “Isso é uma obra mais importante que qualquer edifício”, disse ele aos colegas. “A água é vida”.
A data da inauguração foi marcada para o dia 25 de março – o aniversário de nascimento de Elizabeth. Toda a família se reuniu na casa de Luiz e Alayde, esperando pela hora em que a água seria ligada. Sônia trouxe seus filhos e netos; Carlos veio com Mariana e Carla; Elizabeth com João e Sarabeth; Ricardo, que já estava no último ano de Pedagogia, veio com os amigos do grupo de leitura. Os bisnetos – Elick, Italo e Isis – corriam pelo quintal, curiosos com o tubo que estava instalado na parede da casa.
Às 10 da manhã, Sr. Antônio ligou a torneira principal do morro. E em cada casa, ao mesmo tempo, a água começou a correr. Alayde foi a primeira a ligar a torneira da sua casa – água clara, fria, correu pelo bico e caiu no balde que ela tinha preparado. Ela colocou a mão na água e sentiu um calor que não era de temperatura – era o calor da liberdade, da fim de anos de esforço. “É limpa”, disse ela, com voz tremida. “Muito limpa”.
Os filhos abraçaram a mãe, e Elizabeth disse: “Este é o melhor presente de aniversário que eu poderia ter – ver você feliz com a água em casa”. Alayde pegou um copo, encheu com água da torneira e bebeu – foi a primeira vez que bebia água de torneira na sua casa. “É doce”, disse ela, chorando de novo. “Mais doce que o suco de acerola que Luiz me comprou no primeiro encontro”.
Luiz pegou a mão de Alayde e levou-a até a janela, onde eles podiam ver todo o morro. As torneiras estavam ligadas em todas as casas, e os moradores estavam celebrando – cantando, dançando, bebendo água e abraçando-se. “Olha”, disse Luiz. “Toda a comunidade está feliz. Nós fizemos isso juntos”. Alayde sorriu e beijou o marido: “Você construiu a nossa casa, e a comunidade construiu o resto. Juntos, somos invencíveis”.
Na noite, todos os moradores se reuniram para um jantar comunitário – com arroz, feijão, frango e um bolo que Dona Maria preparou com água da torneira. Alayde foi convidada para falar, e disse: “Eu passei anos carregando água pela encosta, com a coluna doente e crises de asma. Hoje, a água chegou – e com ela, a esperança de um futuro melhor para os nossos filhos e netos. Obrigada a todos vocês, e obrigada a você, Luiz – por nunca ter desistido de nós”. Os aplausos foram enormes, e a lua brilhava no céu, refletida na água da poça que a comunidade tinha construído anos atrás – uma poça que agora era só um lembrete do passado, mas que representava toda a luta que eles tinham vencido.
CAPÍTULO 24: A FORMATURA DE RICARDO E O NOVA GRUPO DE LEITURA E BRINQUEDOS
Em dezembro de 1997, Ricardo completou o curso de Pedagogia na UFF – a quarta filha do casal a se formar em superior. A formatura foi em uma manhã de sol, com toda a família presente – incluindo os bisnetos, que vestiam roupas novas feitas por Alayde. Ricardo vestiu a toga preta e a barra azul, e quando subiu ao palco para pegar o diploma, viu Luiz e Alayde no primeiro fileira, sorrindo e chorando de alegria.
Ao receber o diploma, Ricardo falou em seu discurso: “Eu devo tudo isso à minha família – especialmente ao meu pai, que me ensinou que a força não está só no corpo, mas no coração, e à minha mãe, que me ensinou que a paciência vence todas as dificuldades. E aos bisnetos, que me mostram que a felicidade está em pequenas coisas – como um brinquedo de madeira ou uma história lida”. Os aplausos foram fortes, e Elick gritou “Tio Ricardo é professor!” tão alto que todos ao redor se viraram para olhar.
Na semana seguinte, Ricardo anunciou a criação do “Grupo de Leitura e Brinquedos do Morro” – uma junção do trabalho de Elizabeth com o que ele tinha aprendido com o pai. Ele alugou um espaço maior na base do morro, e Luiz ajudou a construir estantes para livros e mesas para as crianças. Ricardo ensinava a ler e a escrever pela manhã, e pela tarde, ele e Luiz ensinavam as crianças a construir brinquedos com madeira – carrinhos, casinhas, bonecas. “A leitura abre a mente, e a mão aberta abre o coração”, disse Ricardo a os pais.
O grupo cresceu rápido – em menos de um mês, já tinha mais de cinquenta crianças participando. Alayde ajudava a preparar lanches para as crianças, usando água da torneira e farinha de mandioca que ela fazia. “É lindo ver elas brincar e aprender”, disse ela a Luiz um dia, enquanto observava as crianças construindo brinquedos. “Nós estamos deixando um legado”.
Um dia, uma criança chamada Ana, de oito anos, que vivia em uma família pobre do morro, mostrou o carrinho que tinha construído com Ricardo e Luiz. “Este é o melhor brinquedo que eu já tive”, disse ela, sorrindo. “Vou guardá-lo para o meu filho”. Luiz abraçou a criança: “Isso é o que queremos, filha. Que o que aprendemos aqui continue com as próximas gerações”.
Na noite de Natal de 1997, o grupo de leitura e brinquedos organizou uma apresentação: as crianças leram histórias que tinham escrito e mostrou os brinquedos que tinham construído. Alayde e Luiz estavam no primeiro fileira, e quando Ana mostrou o carrinho, Alayde chorou de emoção. “Eu nunca imaginei que a nossa vida chegaria a isso”, disse ela a Luiz. “Uma casa com água e luz, filhos formados, netos e bisnetos felizes. Tudo o que nós sonhamos”. Luiz sorriu e acariciou a mão dela: “E ainda temos mais coisas para sonhar, meu amor. A vida não acaba nunca”.
CAPÍTULO 25: A PIORA DA ASMA DE ALEGRIA E A FORÇA DA FAMÍLIA JUNTA
Em junho de 2001, quando Alayde tinha sessenta e seis anos, as crises de asma que ela levava desde a infância começaram a piorar drasticamente. A poluição do ar no morro, mesmo com as melhorias nas condições de vida, agravava os seus pulmões – ela tinha dificuldade para respirar, mesmo em dias calmos, e as crises vinham com mais frequência e força. Um dia, ela estava ajudando Elizabeth a preparar o jantar quando sentiu uma falta de ar que pareceu sufocá-la – os pulmões pareciam se fechar, e ela caiu no chão, tossindo e chorando.
Ricardo, que estava na sala de estudo, ouviu os gritos e correu até ela. Ele levou-a para a cama e chamou Sônia, que chegou em minutos com o kit de emergência de enfermeira. “É uma crise grave, mamãe”, disse Sônia, administrando um remédio por inalação. “Temos que levar você ao hospital”. Alayde acenou com a cabeça, sem conseguir falar, e os filhos carregaram-na até o carro de Carlos, que levou-a ao hospital público mais próximo.
Os médicos diagnosticaram uma agudização da asma crônica e disseram que Alayde precisava de um tratamento contínuo – remédios caros, inalações diárias e repouso absoluto. “Ela não pode mais fazer esforços”, disse o médico a Sônia. “A slightest fadiga pode piorar a situação”. Os filhos ficaram preocupados – Alayde sempre era a que cuidava de todos, e agora era ela quem precisava de cuidado.
Luiz, que tinha sessenta e oito anos, resolveu se tornar o principal cuidador da esposa. Ele parou de construir brinquedos para as crianças do grupo – pelo menos por um tempo – e passou todos os dias ao lado de Alayde. Ele preparava o café da manhã, ajudava-a a tomar os remédios, carregava-a até a cadeira do quintal para ver o sol e o mar. “Eu vou cuidar de você, meu amor”, disse ele um dia, acariciando o cabelo dela. “Como você cuidou de mim quando eu teve o ataque cardíaco”.
Os filhos também se organizaram: Sônia vinha todos os dias após o trabalho para fazer as inalações de Alayde e checar os seus sinais vitais; Carlos pagava pela maior parte dos remédios com o salário da loja de eletrônicos; Elizabeth levava os bisnetos para ver a avó todos os finais de semana, para que ela não se sentisse sozinha; Ricardo ajustou o horário do grupo de leitura para poder ajudar o pai com os afazeres da casa.
Um dia, Elick, com onze anos, chegou à casa com um desenho que tinha feito. Ele mostrou para Alayde: era uma figura de uma mulher com asas, voando sobre o morro, com a água da torneira correndo nas mãos. “Isso é você, avó”, disse ele. “Você é um anjo que ajuda todo mundo”. Alayde sorriu e abraçou o bisneto: “Você é o meu anjo, Elick. Você me faz querer continuar”.
Na semana seguinte, os bisnetos organizaram uma pequena festa na casa para Alayde. Eles prepararam um bolo de chocolate (com a ajuda de Elizabeth), cantaram músicas que ela gostava e fizeram desenhos para ela. Isis, com cinco anos, deu a Alayde um brinquedo de madeira – um pequeno pássaro que Luiz tinha construído para ela. “Avó, esse pássaro voa alto”, disse Isis. “Igual a você”. Alayde chorou de emoção e abraçou todos os bisnetos: “Eu tenho a família mais linda do mundo. Isso é o que me sustenta”.
No final da festa, Luiz sentou-se ao lado de Alayde na cadeira do quintal. O sol estava se pondo, e a vista do mar era linda. “Você está melhor, meu amor”, disse Luiz. “A família te ajuda a respirar”. Alayde acariciou a mão dele: “Sim. Vocês todos são o meu ar, Luiz. Sem vocês, eu não conseguiria”. E naquele momento, ela sentiu que a asma tinha diminuído – que a força da família era mais forte que qualquer doença.

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