CAPÍTULO 8: A FALTA DE DINHEIRO E O PRIMEIRO DIA DE SÔNIA NA ESCOLA
Os anos passaram rápido, e Sônia Maria cresceu como uma flor no meio da dificuldade. Ela tinha três anos quando começou a perguntar por livros: “Papai, por que você não lê para mim?” Luiz sentia uma dor no peito – a promessa que tinha feito à filha ainda não estava cumprida. “Um dia, filha. Um dia eu aprendo a ler, e leio para você todos os livros do mundo”, disse ele, mas sabia que não era fácil. Alayde, que conseguia decifrar algumas palavras, tentava ensinar a Sônia a escrever o seu nome no chão com um pedaço de carvão: “S-Ô-N-I-A. Assim, filha. Repete comigo”.
A falta de dinheiro ficou mais acuta quando Sônia chegou à idade de ir à escola. A escola pública estava a quase um quilômetro de casa, e Alayde tinha que levá-la todos os dias, caminhando, com a coluna doente e crises de asma frequentes. Mas a maior dificuldade era comprar o material escolar: cadernos, lápis, canetas. Luiz trabalhou três obras ao mesmo tempo por um mês para conseguir o dinheiro – chegou em casa às 1 da manhã todos os dias, cansado até a alma, mas quando viu a alegria no rosto de Sônia ao receber os cadernos novos, tudo valia a pena.
O primeiro dia de escola foi um dia de emoção e medo. Sônia vestiu a única roupa nova que tinha – uma blusa azul e uma saia branca que Alayde tinha feito com pano sobrante – e segurou a mão de sua mãe. “Mamãe, eu tenho medo”, disse ela, quando chegaram à porta da escola. Alayde abraçou-a: “Não tenha medo, filha. Aqui você vai aprender coisas novas, fazer amigos. Papai e eu estamos com você”. Luiz, que tinha saído da obra mais cedo para ver a filha entrar na escola, esperava na porta, com o machado de obra na mão (tinha que voltar trabalhar logo). “Boa sorte, minha filha”, disse ele, beijando a testa dela. “Seja a melhor aluna da classe”.
Sônia entrou na sala de aula, olhando para as outras crianças e para a professora, uma mulher jovem com cabelos ruivos. Na primeira aula, a professora ensinou a escrever a letra “A”. Sônia aprendeu rápido – escreveu a letra no caderno com um lápis que estava quase acabado, com mãos pequenas mas firmes. Quando chegou em casa à tarde, mostrou o caderno para os pais: “Olha, papai! Mamãe! Eu escrevi a letra ‘A’!” Luiz agarrou o caderno com cuidado, como se fosse um tesouro, e olhou para a letra escrita. A promessa que tinha feito à filha parecia mais próxima. “Você é muito inteligente, Sônia”, disse ele, com orgulho nos olhos. “Um dia, você vai ensinar a mim a ler”.
Mas a alegria não durou muito. No final do mês, o patrão de Luiz anunciou que a obra estava terminada – e que não havia mais trabalho para ele. Luiz passou dias andando pelas ruas, perguntando por emprego, mas ninguém precisava de carpinteiro. Eles começaram a comer apenas arroz por dias – Alayde tinha que pedir comida aos vizinhos, algo que ela odiava fazer. Um dia, Sônia chegou em casa e disse: “Professora pediu para trazer um livro de histórias para a escola”. Luiz e Alayde olharam um para o outro – não tinha dinheiro para comprar um livro. Naquela noite, Luiz saiu da casa e foi até a biblioteca pública mais próxima. Ele não sabia como pedir um livro emprestado (não sabia assinar o formulário), mas pediu ajuda a um funcionário. “Meu filho precisa de um livro para a escola”, disse ele, com voz baixa. O funcionário, compadecido, emprestou um livro de histórias de graça, sem pedir assinatura. Luiz voltou para casa e deu o livro a Sônia – ela abraçou-o e disse: “Obrigada, papai. Você é o melhor papai do mundo”. Luiz chorou em segredo – sabia que não era o melhor, mas estava fazendo tudo o que podia.
CAPÍTULO 9: O NASCIMENTO DE CARLOS LUIZ E O SONHO DE UM TERRENO PRÓPRIO
Quando Sônia tinha dois anos, Alayde descobriu que estava grávida de novo. Dessa vez, a notícia veio com mistura de alegria e medo – já tinham dificuldade em sustentar uma filha, como iam cuidar de dois? Luiz abraçou-a com força: “Juntos, conseguimos tudo. O Senhor não nos dará mais do que podemos aguentar”. Mas na noite seguinte, ele ficou acordado até tarde, pensando no dinheiro que faltava, na obra que terminara, na casa pequena que já não cabia mais a todos.
Os meses do segundo parto foram mais difíceis que o primeiro. Alayde teve crises de asma mais frequentes – o ar sujo do bairro de Campo Grande não ajudava – e não tinha dinheiro para remédios novos. Luiz conseguiu um trabalho temporário em uma obra de calçada, pagando R$ 3 por dia – pouco, mas suficiente para comprar arroz e feijão e um remédio barato para a esposa. Ele saia às 2 da manhã, trabalhava até o sol se pôr, e voltava em casa cansado de mais, mas sempre fazia questão de acariciar o ventre de Alayde e falar com o bebê: “Oi, meu filho. Papai está aqui. Vai ser um homem forte, igual a papai”.
Em outubro de 1967, Alayde entrou em trabalho de parto no meio da noite. Luiz não tinha dinheiro para um táxi, então carregou-a em seus braços por quase um quilômetro até a clínica popular. A chuva estava caindo forte, e a rua estava cheia de lama – mas Luiz não parou, mesmo que os pés ficassem presos e a força acabasse. “Chegamos logo, meu amor”, sussurrou ele, enquanto Alayde gritava de dor em seus braços.
Chegados à clínica, o médico disse que o parto estava complicado – o bebê estava de cabeça para cima. Alayde passou quase oito horas de parto, e Luiz ficou fora da sala, rezando e trancando os punhos até os dedos ficarem brancos. Finalmente, o médico saiu com um sorriso: “É um menino. Tudo bem – tivemos que fazer um pequeno corte, mas ambos estão seguros”. Luiz entrou na sala e viu Alayde deitada na cama, mais pálida que nunca, com um menino pequeno e rosado em seus braços. Ele se aproximou, beijou a esposa e olhou para o filho: cabelos pretos, olhos castanhos como os dele. “Como vamos chamá-lo?” perguntou Alayde, com voz fraca. Luiz sorriu: “Carlos Luiz. Um pouco de você e um pouco de mim”.
Agora com dois filhos, a casa de Campo Grande ficou insuportavelmente pequena. Sônia dormia na cama com os pais, e Carlos tinha que dormir em uma berço que Luiz construiu com madeira de obra. A falta de espaço fazia com que as discussões fossem mais frequentes – Alayde se irritava com o desordeiro, Luiz com o cansaço, e Sônia chorava por não ter espaço para brincar. Um dia, um colega de obra de Luiz, João Carlos, veio visitar eles e falou de um terreno no morro de Niterói: “É um pedaço pequeno, íngreme, mas barato – só R$ 500. Você pode construir a sua própria casa lá, sem aluguel”. Luiz ouviu com atenção – R$ 500 era muito dinheiro, mas a ideia de ter um terreno próprio fazia seu coração acelerar.
Na semana seguinte, Luiz e Alayde foram ver o terreno. Era uma encosta coberta de mato e pedra, com vista para o mar – uma vista linda, apesar da dificuldade de acesso. Alayde ficou preocupada: “Como vamos chegar até aqui? Não há rua, não há água…” Luiz agarrou sua mão: “Construiremos a rua com as nossas mãos. Construiremos a casa com as nossas mãos. E a água vai chegar – um dia, vai chegar”. Sônia, que estava com eles, correu pela encosta e gritou: “Papai, mamãe! Temos uma montanha para brincar!” Alayde sorriu – a alegria da filha valia mais que qualquer preocupação. “Vamos comprar”, disse ela. “Vamos construir a nossa casa aqui”.
CAPÍTULO 10: A ECONOMIA PARA O TERRENO E A PRIMEIRA PEDRA DA CASA
Comprar o terreno custou R$ 500 – dinheiro que eles não tinham. Luiz pediu empréstimo a todos os amigos e parentes que conseguia, e Alayde começou a trabalhar como babá em horas vagas, cuidando de um bebê do bairro. Eles economizaram tudo: Luiz não comprava mais cigarro, Alayde não comprava mais pano para fazer roupas, e Sônia parou de pedir coisas novas. Todo o dinheiro ia para o fundo do terreno.
Foram dois anos de luta. Luiz trabalhou em quatro obras ao mesmo tempo, saindo às 1 da manhã e chegando em casa às 1 da manhã do dia seguinte – muitas vezes, não via os filhos por dias, pois eles estavam dormindo quando ele chegava e quando ele saía. Alayde cuidava de Carlos e Sônia, trabalhava como babá, e ainda conseguia cozinhar e lavar roupas – mas a coluna doente piorava, e as crises de asma eram mais fortes. Um dia, ela desmaiou enquanto estava cozinhando – Sônia, com cinco anos, correu até o vizinho para pedir ajuda. Quando Luiz chegou em casa e viu a esposa deitada na cama, com o médico ao lado, ele quase abandonou tudo: “Não consigo mais ver você sofrer”. Alayde agarrou sua mão: “Estamos quase lá. Não desista de nós”.
Finalmente, em dezembro de 1969, eles conseguiram juntar os R$ 500. Luiz foi até Niterói e assinou o contrato do terreno – o funcionário da cartório teve que ajudar ele a assinar, pois ele não sabia escrever seu nome direito. Quando Luiz voltou para casa com o documento em mãos, mostrou a Alayde e os filhos: “É nosso. O terreno é nosso”. Sônia pulou de alegria, e Carlos riu, batendo as mãos. Alayde chorou de emoção – todos os sacrifícios tinham valido a pena.
No dia 1º de janeiro de 1970, eles colocaram a primeira pedra da casa. Luiz trouxe madeira sobrante de obra, barro da própria encosta e chapa para o telhado. Os amigos e vizinhos ajudaram – alguns traziam pedra, outros ajudavam a misturar o barro, e Sônia ajudava a levar água da base do morro em um balde pequeno. “A primeira pedra é para a nossa felicidade”, disse Luiz, colocando uma pedra grande no canto da casa. “E para que nossos filhos tenham um lugar para sempre”.
A construção foi lenta, mas constante. Luiz trabalhava na obra durante o dia e construía a própria casa durante a noite, com a luz de um farol de mão que comprou em uma feira. Alayde ajudava a misturar o barro e a colocar as paredes, mesmo que a coluna doente doesse. Em março de 1970, quando a casa já tinha as paredes prontas, Alayde percebeu que estava grávida de novo. Dessa vez, a notícia veio com alegria – “O bebê vai nascer na nossa nova casa”, disse ela, acariciando o ventre. Luiz sorriu: “Sim. Nossa casa vai ter três filhos. Que sorte a nossa”.
No final de abril, a casa foi terminada – pequena, com duas quartos, uma cozinha de barro e um piso de terra, mas feita com as próprias mãos de Luiz e Alayde. Eles se mudaram no dia de São Jorge, 23 de abril. Sônia correu pelo quarto que era dela e de Carlos, gritando: “É nosso quarto! Nós temos um quarto!” Carlos rastejou pelo piso de terra, feliz. Luiz e Alayde ficaram de pé na porta, olhando para a casa que construíram, com a vista do mar ao fundo. “Chegamos”, disse Luiz, abraçando a esposa. “Finalmente, chegamos”.
CAPÍTULO 11: O NASCIMENTO DE ELIZABETH E A REALIDADE BRUTA DO MORRO
A alegria da nova casa durou pouco – a realidade do morro bateu forte logo nos primeiros dias. Não havia água encanada: toda a água tinha que ser carregada em galões de 20 litros, por uma rua de terra que ficava escorregadia na chuva e era perigosa à noite. Não havia luz elétrica – eles usavam velas e lamparinas a querosene, que deixavam uma fumaça forte que irritava a asma de Alayde. Não havia comércio próximo: tudo – arroz, feijão, pão – tinha que ser comprado na base do morro e carregado para cima, um caminho de quase 500 metros de encosta íngreme.
Alayde, grávida de terceira vez, tinha que fazer a caminhada para buscar água várias vezes por dia. A coluna doente doía tanto que ela tinha que parar a cada alguns passos, encostada em uma pedra, para respirar. Sônia, com seis anos, ajudava a carregar um galão pequeno – “Mamãe, eu ajudo você para que você não canse”, dizia ela, com a cara suja de suor e lama. Luiz, que trabalhava na obra no Rio, sempre tentava chegar em casa mais cedo para ajudar, mas muitas vezes chegava às 10 da noite, cansado até a alma, e só conseguia tomar um banho com a água que Alayde tinha guardado.
Em setembro de 1970, Alayde entrou em trabalho de parto no meio da noite. A chuva estava caindo forte, e a rua do morro estava impassável – não havia jeito de chegar à clínica popular. Luiz ficou desesperado: “O que vamos fazer? Não posso deixar ela dar à luz aqui, sem médico!” Um vizinho, Dona Maria, que tinha ajudado a dar à luz a várias crianças no morro, ouviu os gritos e veio ajudar. “Fique calmo, Luiz. Eu ajudo ela”, disse ela, entrando na casa e fechando a porta.
Alayde passou cinco horas de parto, com apenas a luz de uma vela e as mãos de Dona Maria para ajudar. Luiz ficou fora da sala, rezando e andando de um lado para o outro, ouvindo os gritos da esposa. Quando ouviu o choro de um bebê, ele parou e sentiu uma alegria que apagou todo o medo. Dona Maria saiu da sala com um sorriso: “É uma menina. Linda, como a mãe”. Luiz entrou e viu Alayde deitada na cama, pálida e suada, com uma pequena menina em seus braços. A criança tinha cabelos ruivos e olhos castanhos claros – diferente dos irmãos. “Como vamos chamá-la?” perguntou Alayde, com voz fraca. Luiz beijou a testa dela: “Elizabeth. Em homenagem à sua tia que morreu em Aldeia Velha. Ela era uma mulher forte, igual a você”.
Os primeiros dias com Elizabeth foram difíceis. Sem água suficiente, Alayde tinha dificuldade em lavar a bebê e manter a casa limpa. A fumaça das lamparinas irritava a asma de ambas – Elizabeth tossia com frequência, e Alayde teve uma crise grave que quase a deixou sem ar. Luiz, desesperado, resolveu construir uma pequena poça de água na encosta, para pegar a água da chuva. Trabalhou por três dias, cavando a terra com uma pá e colocando pedra ao redor. Quando a chuva chegou, a poça encheu – não era água potável, mas servia para lavar roupas e a casa. “É um começo”, disse ele a Alayde, que sorriu com gratidão.
Um dia, Sônia veio em casa com um livro que emprestou da professora. “Mamãe, papai, quero que me leiam essa história”, disse ela. Luiz e Alayde olharam um para o outro – a tristeza de não saber ler pairava no ar. Elizabeth, que estava na cama de Alayde, deu um suspiro, e Alayde disse: “Filha, mamãe e papai não sabem ler, mas você vai aprender. E vai ler para nós. Vai ser a nossa voz”. Sônia acenou com a cabeça e começou a olhar para as ilustrações do livro, contando a história com suas próprias palavras. Luiz sentou-se ao lado dela e ouviu, com os olhos cheios de lágrimas – a filha estava cumprindo a promessa que ele não conseguiu fazer. Naquela noite, olhando para as três crianças dormindo e para a casa que construíra, Luiz pensou: “A vida é difícil, mas temos amor. E amor é o que sustenta a casa”.
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