Muitas histórias ainda nos apresentam figuras moldadas como ideais: corretas em suas escolhas, firmes em seus valores, sem falhas que manchem a imagem construída pelo enredo. Mas há uma visão que rompe com esse padrão — uma compreensão de que a perfeição não tem espaço na arte que quer refletir a essência humana. Como se costuma dizer: “Sou incapaz de acreditar que existam personagens corretas. Sei que todas têm um pano de fundo, uma sombra que talvez o escritor não tenha querido mostrar, mas que está ali. A mim interessa trazer essa sombra à luz por meio da escrita, por isso minhas personagens são pessoas cheias de incorreções. É isso que as humaniza.”
O que se esconde por trás da superfície
Todo ser humano carrega camadas: há o que mostramos ao mundo, e há o que guardamos — medos, arrependimentos, impulsos que não se alinham ao que é considerado “certo”, decisões que parecem equivocadas aos olhos dos outros. O mesmo acontece com as personagens. Muitas vezes, autores optam por deixar de lado essas partes mais obscuras, receosos de que elas afastem o leitor ou de que tornem a figura menos “admirável”. Mas essa escolha cria personagens vazias, distantes, que parecem saídas de um molde, sem alma nem profundidade.
A “sombra” a que se refere não é algo negativo em si — é apenas o que é humano, o que não se encaixa em regras rígidas de conduta. É o passado que moldou reações, a ferida que ainda influencia escolhas, o desejo que contraria o que é esperado. Ela está ali, presente em cada traço, mesmo que não seja explicitada de imediato.
As incorreções como marca de verdade
Ao trazer essas sombras à luz, a escrita ganha vida. Uma personagem que nunca erra, que nunca duvida, que nunca age de forma contraditória, não convence. Mas quando ela demonstra fraquezas, toma decisões questionáveis ou carrega vícios e limitações, ela se aproxima de nós. Suas “incorreções” são exatamente o que a torna palpável: mostram que, assim como qualquer pessoa real, ela é feita de contradições.
Essa abordagem transforma a leitura em um encontro. Em vez de olhar para uma figura inatingível, o leitor se identifica, reconhece suas próprias lutas e imperfeições refletidas ali. As falhas não diminuem a personagem — pelo contrário, elas aprofundam sua complexidade, permitem seu crescimento e tornam sua jornada muito mais significativa.
Escrever para revelar, não para aperfeiçoar
Essa forma de criar personagens também revela uma postura diante da arte: escrever não é construir modelos de conduta, mas dar voz à realidade da experiência humana. Ao optar por não apagar as sombras, o autor assume que a verdade está na totalidade, não apenas na parte que parece mais bonita ou adequada. É um ato de coragem: mostrar que a beleza pode existir junto com a imperfeição, que a dignidade não depende de ser sempre correto.
No fim, as personagens que permanecem na memória são exatamente aquelas que não cabem em definições simples. Elas são cheias de luz e escuridão, acertos e erros, qualidades e defeitos — assim como todos nós. E é justamente por serem “incorretas”, completas e reais, que conseguem nos tocar e nos fazer refletir sobre o que significa, de fato, ser humano.
Esse artigo explora a ideia central que você apresentou, organizando-a em uma reflexão sobre criação literária e a relação entre imperfeição e humanidade. Quer que eu também crie uma versão mais curta, para compartilhar em redes sociais?
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