{"id":95,"date":"2026-05-18T03:30:00","date_gmt":"2026-05-18T03:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/biobit.online\/?p=95"},"modified":"2026-05-18T03:30:29","modified_gmt":"2026-05-18T03:30:29","slug":"o-sonho-que-o-amor-construiu-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/biobit.online\/pt\/o-sonho-que-o-amor-construiu-2\/","title":{"rendered":"O Sonho que o Amor Construiu"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CAP\u00cdTULO 8: A FALTA DE DINHEIRO E O PRIMEIRO DIA DE S\u00d4NIA NA ESCOLA<div> <\/div><div> <\/div><div>Os anos passaram r\u00e1pido, e S\u00f4nia Maria cresceu como uma flor no meio da dificuldade. Ela tinha tr\u00eas anos quando come\u00e7ou a perguntar por livros: &#8220;Papai, por que voc\u00ea n\u00e3o l\u00ea para mim?&#8221; Luiz sentia uma dor no peito &#8211; a promessa que tinha feito \u00e0 filha ainda n\u00e3o estava cumprida. &#8220;Um dia, filha. Um dia eu aprendo a ler, e leio para voc\u00ea todos os livros do mundo&#8221;, disse ele, mas sabia que n\u00e3o era f\u00e1cil. Alayde, que conseguia decifrar algumas palavras, tentava ensinar a S\u00f4nia a escrever o seu nome no ch\u00e3o com um peda\u00e7o de carv\u00e3o: &#8220;S-\u00d4-N-I-A. Assim, filha. Repete comigo&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>A falta de dinheiro ficou mais acuta quando S\u00f4nia chegou \u00e0 idade de ir \u00e0 escola. A escola p\u00fablica estava a quase um quil\u00f4metro de casa, e Alayde tinha que lev\u00e1-la todos os dias, caminhando, com a coluna doente e crises de asma frequentes. Mas a maior dificuldade era comprar o material escolar: cadernos, l\u00e1pis, canetas. Luiz trabalhou tr\u00eas obras ao mesmo tempo por um m\u00eas para conseguir o dinheiro &#8211; chegou em casa \u00e0s 1 da manh\u00e3 todos os dias, cansado at\u00e9 a alma, mas quando viu a alegria no rosto de S\u00f4nia ao receber os cadernos novos, tudo valia a pena.<\/div><div> <\/div><div>O primeiro dia de escola foi um dia de emo\u00e7\u00e3o e medo. S\u00f4nia vestiu a \u00fanica roupa nova que tinha &#8211; uma blusa azul e uma saia branca que Alayde tinha feito com pano sobrante &#8211; e segurou a m\u00e3o de sua m\u00e3e. &#8220;Mam\u00e3e, eu tenho medo&#8221;, disse ela, quando chegaram \u00e0 porta da escola. Alayde abra\u00e7ou-a: &#8220;N\u00e3o tenha medo, filha. Aqui voc\u00ea vai aprender coisas novas, fazer amigos. Papai e eu estamos com voc\u00ea&#8221;. Luiz, que tinha sa\u00eddo da obra mais cedo para ver a filha entrar na escola, esperava na porta, com o machado de obra na m\u00e3o (tinha que voltar trabalhar logo). &#8220;Boa sorte, minha filha&#8221;, disse ele, beijando a testa dela. &#8220;Seja a melhor aluna da classe&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>S\u00f4nia entrou na sala de aula, olhando para as outras crian\u00e7as e para a professora, uma mulher jovem com cabelos ruivos. Na primeira aula, a professora ensinou a escrever a letra &#8220;A&#8221;. S\u00f4nia aprendeu r\u00e1pido &#8211; escreveu a letra no caderno com um l\u00e1pis que estava quase acabado, com m\u00e3os pequenas mas firmes. Quando chegou em casa \u00e0 tarde, mostrou o caderno para os pais: &#8220;Olha, papai! Mam\u00e3e! Eu escrevi a letra &#8216;A&#8217;!&#8221; Luiz agarrou o caderno com cuidado, como se fosse um tesouro, e olhou para a letra escrita. A promessa que tinha feito \u00e0 filha parecia mais pr\u00f3xima. &#8220;Voc\u00ea \u00e9 muito inteligente, S\u00f4nia&#8221;, disse ele, com orgulho nos olhos. &#8220;Um dia, voc\u00ea vai ensinar a mim a ler&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Mas a alegria n\u00e3o durou muito. No final do m\u00eas, o patr\u00e3o de Luiz anunciou que a obra estava terminada &#8211; e que n\u00e3o havia mais trabalho para ele. Luiz passou dias andando pelas ruas, perguntando por emprego, mas ningu\u00e9m precisava de carpinteiro. Eles come\u00e7aram a comer apenas arroz por dias &#8211; Alayde tinha que pedir comida aos vizinhos, algo que ela odiava fazer. Um dia, S\u00f4nia chegou em casa e disse: &#8220;Professora pediu para trazer um livro de hist\u00f3rias para a escola&#8221;. Luiz e Alayde olharam um para o outro &#8211; n\u00e3o tinha dinheiro para comprar um livro. Naquela noite, Luiz saiu da casa e foi at\u00e9 a biblioteca p\u00fablica mais pr\u00f3xima. Ele n\u00e3o sabia como pedir um livro emprestado (n\u00e3o sabia assinar o formul\u00e1rio), mas pediu ajuda a um funcion\u00e1rio. &#8220;Meu filho precisa de um livro para a escola&#8221;, disse ele, com voz baixa. O funcion\u00e1rio, compadecido, emprestou um livro de hist\u00f3rias de gra\u00e7a, sem pedir assinatura. Luiz voltou para casa e deu o livro a S\u00f4nia &#8211; ela abra\u00e7ou-o e disse: &#8220;Obrigada, papai. Voc\u00ea \u00e9 o melhor papai do mundo&#8221;. Luiz chorou em segredo &#8211; sabia que n\u00e3o era o melhor, mas estava fazendo tudo o que podia.<\/div><div>CAP\u00cdTULO 9: O NASCIMENTO DE CARLOS LUIZ E O SONHO DE UM TERRENO PR\u00d3PRIO<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>Quando S\u00f4nia tinha dois anos, Alayde descobriu que estava gr\u00e1vida de novo. Dessa vez, a not\u00edcia veio com mistura de alegria e medo &#8211; j\u00e1 tinham dificuldade em sustentar uma filha, como iam cuidar de dois? Luiz abra\u00e7ou-a com for\u00e7a: &#8220;Juntos, conseguimos tudo. O Senhor n\u00e3o nos dar\u00e1 mais do que podemos aguentar&#8221;. Mas na noite seguinte, ele ficou acordado at\u00e9 tarde, pensando no dinheiro que faltava, na obra que terminara, na casa pequena que j\u00e1 n\u00e3o cabia mais a todos.<\/div><div> <\/div><div>Os meses do segundo parto foram mais dif\u00edceis que o primeiro. Alayde teve crises de asma mais frequentes &#8211; o ar sujo do bairro de Campo Grande n\u00e3o ajudava &#8211; e n\u00e3o tinha dinheiro para rem\u00e9dios novos. Luiz conseguiu um trabalho tempor\u00e1rio em uma obra de cal\u00e7ada, pagando R$ 3 por dia &#8211; pouco, mas suficiente para comprar arroz e feij\u00e3o e um rem\u00e9dio barato para a esposa. Ele saia \u00e0s 2 da manh\u00e3, trabalhava at\u00e9 o sol se p\u00f4r, e voltava em casa cansado de mais, mas sempre fazia quest\u00e3o de acariciar o ventre de Alayde e falar com o beb\u00ea: &#8220;Oi, meu filho. Papai est\u00e1 aqui. Vai ser um homem forte, igual a papai&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Em outubro de 1967, Alayde entrou em trabalho de parto no meio da noite. Luiz n\u00e3o tinha dinheiro para um t\u00e1xi, ent\u00e3o carregou-a em seus bra\u00e7os por quase um quil\u00f4metro at\u00e9 a cl\u00ednica popular. A chuva estava caindo forte, e a rua estava cheia de lama &#8211; mas Luiz n\u00e3o parou, mesmo que os p\u00e9s ficassem presos e a for\u00e7a acabasse. &#8220;Chegamos logo, meu amor&#8221;, sussurrou ele, enquanto Alayde gritava de dor em seus bra\u00e7os.<\/div><div> <\/div><div>Chegados \u00e0 cl\u00ednica, o m\u00e9dico disse que o parto estava complicado &#8211; o beb\u00ea estava de cabe\u00e7a para cima. Alayde passou quase oito horas de parto, e Luiz ficou fora da sala, rezando e trancando os punhos at\u00e9 os dedos ficarem brancos. Finalmente, o m\u00e9dico saiu com um sorriso: &#8220;\u00c9 um menino. Tudo bem &#8211; tivemos que fazer um pequeno corte, mas ambos est\u00e3o seguros&#8221;. Luiz entrou na sala e viu Alayde deitada na cama, mais p\u00e1lida que nunca, com um menino pequeno e rosado em seus bra\u00e7os. Ele se aproximou, beijou a esposa e olhou para o filho: cabelos pretos, olhos castanhos como os dele. &#8220;Como vamos cham\u00e1-lo?&#8221; perguntou Alayde, com voz fraca. Luiz sorriu: &#8220;Carlos Luiz. Um pouco de voc\u00ea e um pouco de mim&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Agora com dois filhos, a casa de Campo Grande ficou insuportavelmente pequena. S\u00f4nia dormia na cama com os pais, e Carlos tinha que dormir em uma ber\u00e7o que Luiz construiu com madeira de obra. A falta de espa\u00e7o fazia com que as discuss\u00f5es fossem mais frequentes &#8211; Alayde se irritava com o desordeiro, Luiz com o cansa\u00e7o, e S\u00f4nia chorava por n\u00e3o ter espa\u00e7o para brincar. Um dia, um colega de obra de Luiz, Jo\u00e3o Carlos, veio visitar eles e falou de um terreno no morro de Niter\u00f3i: &#8220;\u00c9 um peda\u00e7o pequeno, \u00edngreme, mas barato &#8211; s\u00f3 R$ 500. Voc\u00ea pode construir a sua pr\u00f3pria casa l\u00e1, sem aluguel&#8221;. Luiz ouviu com aten\u00e7\u00e3o &#8211; R$ 500 era muito dinheiro, mas a ideia de ter um terreno pr\u00f3prio fazia seu cora\u00e7\u00e3o acelerar.<\/div><div> <\/div><div>Na semana seguinte, Luiz e Alayde foram ver o terreno. Era uma encosta coberta de mato e pedra, com vista para o mar &#8211; uma vista linda, apesar da dificuldade de acesso. Alayde ficou preocupada: &#8220;Como vamos chegar at\u00e9 aqui? N\u00e3o h\u00e1 rua, n\u00e3o h\u00e1 \u00e1gua&#8230;&#8221; Luiz agarrou sua m\u00e3o: &#8220;Construiremos a rua com as nossas m\u00e3os. Construiremos a casa com as nossas m\u00e3os. E a \u00e1gua vai chegar &#8211; um dia, vai chegar&#8221;. S\u00f4nia, que estava com eles, correu pela encosta e gritou: &#8220;Papai, mam\u00e3e! Temos uma montanha para brincar!&#8221; Alayde sorriu &#8211; a alegria da filha valia mais que qualquer preocupa\u00e7\u00e3o. &#8220;Vamos comprar&#8221;, disse ela. &#8220;Vamos construir a nossa casa aqui&#8221;.<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>CAP\u00cdTULO 10: A ECONOMIA PARA O TERRENO E A PRIMEIRA PEDRA DA CASA<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>Comprar o terreno custou R$ 500 &#8211; dinheiro que eles n\u00e3o tinham. Luiz pediu empr\u00e9stimo a todos os amigos e parentes que conseguia, e Alayde come\u00e7ou a trabalhar como bab\u00e1 em horas vagas, cuidando de um beb\u00ea do bairro. Eles economizaram tudo: Luiz n\u00e3o comprava mais cigarro, Alayde n\u00e3o comprava mais pano para fazer roupas, e S\u00f4nia parou de pedir coisas novas. Todo o dinheiro ia para o fundo do terreno.<\/div><div> <\/div><div>Foram dois anos de luta. Luiz trabalhou em quatro obras ao mesmo tempo, saindo \u00e0s 1 da manh\u00e3 e chegando em casa \u00e0s 1 da manh\u00e3 do dia seguinte &#8211; muitas vezes, n\u00e3o via os filhos por dias, pois eles estavam dormindo quando ele chegava e quando ele sa\u00eda. Alayde cuidava de Carlos e S\u00f4nia, trabalhava como bab\u00e1, e ainda conseguia cozinhar e lavar roupas &#8211; mas a coluna doente piorava, e as crises de asma eram mais fortes. Um dia, ela desmaiou enquanto estava cozinhando &#8211; S\u00f4nia, com cinco anos, correu at\u00e9 o vizinho para pedir ajuda. Quando Luiz chegou em casa e viu a esposa deitada na cama, com o m\u00e9dico ao lado, ele quase abandonou tudo: &#8220;N\u00e3o consigo mais ver voc\u00ea sofrer&#8221;. Alayde agarrou sua m\u00e3o: &#8220;Estamos quase l\u00e1. N\u00e3o desista de n\u00f3s&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Finalmente, em dezembro de 1969, eles conseguiram juntar os R$ 500. Luiz foi at\u00e9 Niter\u00f3i e assinou o contrato do terreno &#8211; o funcion\u00e1rio da cart\u00f3rio teve que ajudar ele a assinar, pois ele n\u00e3o sabia escrever seu nome direito. Quando Luiz voltou para casa com o documento em m\u00e3os, mostrou a Alayde e os filhos: &#8220;\u00c9 nosso. O terreno \u00e9 nosso&#8221;. S\u00f4nia pulou de alegria, e Carlos riu, batendo as m\u00e3os. Alayde chorou de emo\u00e7\u00e3o &#8211; todos os sacrif\u00edcios tinham valido a pena.<\/div><div> <\/div><div>No dia 1\u00ba de janeiro de 1970, eles colocaram a primeira pedra da casa. Luiz trouxe madeira sobrante de obra, barro da pr\u00f3pria encosta e chapa para o telhado. Os amigos e vizinhos ajudaram &#8211; alguns traziam pedra, outros ajudavam a misturar o barro, e S\u00f4nia ajudava a levar \u00e1gua da base do morro em um balde pequeno. &#8220;A primeira pedra \u00e9 para a nossa felicidade&#8221;, disse Luiz, colocando uma pedra grande no canto da casa. &#8220;E para que nossos filhos tenham um lugar para sempre&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>A constru\u00e7\u00e3o foi lenta, mas constante. Luiz trabalhava na obra durante o dia e constru\u00eda a pr\u00f3pria casa durante a noite, com a luz de um farol de m\u00e3o que comprou em uma feira. Alayde ajudava a misturar o barro e a colocar as paredes, mesmo que a coluna doente doesse. Em mar\u00e7o de 1970, quando a casa j\u00e1 tinha as paredes prontas, Alayde percebeu que estava gr\u00e1vida de novo. Dessa vez, a not\u00edcia veio com alegria &#8211; &#8220;O beb\u00ea vai nascer na nossa nova casa&#8221;, disse ela, acariciando o ventre. Luiz sorriu: &#8220;Sim. Nossa casa vai ter tr\u00eas filhos. Que sorte a nossa&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>No final de abril, a casa foi terminada &#8211; pequena, com duas quartos, uma cozinha de barro e um piso de terra, mas feita com as pr\u00f3prias m\u00e3os de Luiz e Alayde. Eles se mudaram no dia de S\u00e3o Jorge, 23 de abril. S\u00f4nia correu pelo quarto que era dela e de Carlos, gritando: &#8220;\u00c9 nosso quarto! N\u00f3s temos um quarto!&#8221; Carlos rastejou pelo piso de terra, feliz. Luiz e Alayde ficaram de p\u00e9 na porta, olhando para a casa que constru\u00edram, com a vista do mar ao fundo. &#8220;Chegamos&#8221;, disse Luiz, abra\u00e7ando a esposa. &#8220;Finalmente, chegamos&#8221;.<\/div><div>CAP\u00cdTULO 11: O NASCIMENTO DE ELIZABETH E A REALIDADE BRUTA DO MORRO<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>A alegria da nova casa durou pouco &#8211; a realidade do morro bateu forte logo nos primeiros dias. N\u00e3o havia \u00e1gua encanada: toda a \u00e1gua tinha que ser carregada em gal\u00f5es de 20 litros, por uma rua de terra que ficava escorregadia na chuva e era perigosa \u00e0 noite. N\u00e3o havia luz el\u00e9trica &#8211; eles usavam velas e lamparinas a querosene, que deixavam uma fuma\u00e7a forte que irritava a asma de Alayde. N\u00e3o havia com\u00e9rcio pr\u00f3ximo: tudo &#8211; arroz, feij\u00e3o, p\u00e3o &#8211; tinha que ser comprado na base do morro e carregado para cima, um caminho de quase 500 metros de encosta \u00edngreme.<\/div><div> <\/div><div>Alayde, gr\u00e1vida de terceira vez, tinha que fazer a caminhada para buscar \u00e1gua v\u00e1rias vezes por dia. A coluna doente do\u00eda tanto que ela tinha que parar a cada alguns passos, encostada em uma pedra, para respirar. S\u00f4nia, com seis anos, ajudava a carregar um gal\u00e3o pequeno &#8211; &#8220;Mam\u00e3e, eu ajudo voc\u00ea para que voc\u00ea n\u00e3o canse&#8221;, dizia ela, com a cara suja de suor e lama. Luiz, que trabalhava na obra no Rio, sempre tentava chegar em casa mais cedo para ajudar, mas muitas vezes chegava \u00e0s 10 da noite, cansado at\u00e9 a alma, e s\u00f3 conseguia tomar um banho com a \u00e1gua que Alayde tinha guardado.<\/div><div> <\/div><div>Em setembro de 1970, Alayde entrou em trabalho de parto no meio da noite. A chuva estava caindo forte, e a rua do morro estava impass\u00e1vel &#8211; n\u00e3o havia jeito de chegar \u00e0 cl\u00ednica popular. Luiz ficou desesperado: &#8220;O que vamos fazer? N\u00e3o posso deixar ela dar \u00e0 luz aqui, sem m\u00e9dico!&#8221; Um vizinho, Dona Maria, que tinha ajudado a dar \u00e0 luz a v\u00e1rias crian\u00e7as no morro, ouviu os gritos e veio ajudar. &#8220;Fique calmo, Luiz. Eu ajudo ela&#8221;, disse ela, entrando na casa e fechando a porta.<\/div><div> <\/div><div>Alayde passou cinco horas de parto, com apenas a luz de uma vela e as m\u00e3os de Dona Maria para ajudar. Luiz ficou fora da sala, rezando e andando de um lado para o outro, ouvindo os gritos da esposa. Quando ouviu o choro de um beb\u00ea, ele parou e sentiu uma alegria que apagou todo o medo. Dona Maria saiu da sala com um sorriso: &#8220;\u00c9 uma menina. Linda, como a m\u00e3e&#8221;. Luiz entrou e viu Alayde deitada na cama, p\u00e1lida e suada, com uma pequena menina em seus bra\u00e7os. A crian\u00e7a tinha cabelos ruivos e olhos castanhos claros &#8211; diferente dos irm\u00e3os. &#8220;Como vamos cham\u00e1-la?&#8221; perguntou Alayde, com voz fraca. Luiz beijou a testa dela: &#8220;Elizabeth. Em homenagem \u00e0 sua tia que morreu em Aldeia Velha. Ela era uma mulher forte, igual a voc\u00ea&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Os primeiros dias com Elizabeth foram dif\u00edceis. Sem \u00e1gua suficiente, Alayde tinha dificuldade em lavar a beb\u00ea e manter a casa limpa. A fuma\u00e7a das lamparinas irritava a asma de ambas &#8211; Elizabeth tossia com frequ\u00eancia, e Alayde teve uma crise grave que quase a deixou sem ar. Luiz, desesperado, resolveu construir uma pequena po\u00e7a de \u00e1gua na encosta, para pegar a \u00e1gua da chuva. Trabalhou por tr\u00eas dias, cavando a terra com uma p\u00e1 e colocando pedra ao redor. Quando a chuva chegou, a po\u00e7a encheu &#8211; n\u00e3o era \u00e1gua pot\u00e1vel, mas servia para lavar roupas e a casa. &#8220;\u00c9 um come\u00e7o&#8221;, disse ele a Alayde, que sorriu com gratid\u00e3o.<\/div><div> <\/div><div>Um dia, S\u00f4nia veio em casa com um livro que emprestou da professora. &#8220;Mam\u00e3e, papai, quero que me leiam essa hist\u00f3ria&#8221;, disse ela. Luiz e Alayde olharam um para o outro &#8211; a tristeza de n\u00e3o saber ler pairava no ar. Elizabeth, que estava na cama de Alayde, deu um suspiro, e Alayde disse: &#8220;Filha, mam\u00e3e e papai n\u00e3o sabem ler, mas voc\u00ea vai aprender. E vai ler para n\u00f3s. Vai ser a nossa voz&#8221;. S\u00f4nia acenou com a cabe\u00e7a e come\u00e7ou a olhar para as ilustra\u00e7\u00f5es do livro, contando a hist\u00f3ria com suas pr\u00f3prias palavras. Luiz sentou-se ao lado dela e ouviu, com os olhos cheios de l\u00e1grimas &#8211; a filha estava cumprindo a promessa que ele n\u00e3o conseguiu fazer. Naquela noite, olhando para as tr\u00eas crian\u00e7as dormindo e para a casa que constru\u00edra, Luiz pensou: &#8220;A vida \u00e9 dif\u00edcil, mas temos amor. E amor \u00e9 o que sustenta a casa&#8221;.<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div> <\/div><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CAP\u00cdTULO 8: A FALTA DE DINHEIRO E O PRIMEIRO DIA DE S\u00d4NIA NA ESCOLA Os anos passaram r\u00e1pido, e S\u00f4nia Maria cresceu como uma flor no meio da dificuldade. Ela tinha tr\u00eas anos quando come\u00e7ou a perguntar por livros: &#8220;Papai, por que voc\u00ea n\u00e3o l\u00ea para mim?&#8221; Luiz sentia uma dor no peito &#8211; a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1],"tags":[21],"class_list":["post-95","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","tag-livros"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/phgeRL-1x","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=95"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":96,"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/95\/revisions\/96"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=95"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=95"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=95"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}