{"id":101,"date":"2026-05-18T03:34:38","date_gmt":"2026-05-18T03:34:38","guid":{"rendered":"https:\/\/biobit.online\/?p=101"},"modified":"2026-05-18T03:35:01","modified_gmt":"2026-05-18T03:35:01","slug":"o-sonho-que-o-amor-construiu-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/biobit.online\/pt\/o-sonho-que-o-amor-construiu-3\/","title":{"rendered":"O Sonho que o Amor Construiu"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CAP\u00cdTULO 22: O ATAQUE CARD\u00cdACO DE LUIZ E A LUTA POR ALEGRIA<div> <\/div><div> <\/div><div>Em novembro de 1994, quando Luiz tinha sessenta e um anos, ele estava trabalhando em uma obra de edif\u00edcio no centro do Rio &#8211; ainda trabalhava todos os dias, mesmo que os filhos pedissem para ele se aposentar. &#8220;Eu n\u00e3o sei ficar parado&#8221;, dizia ele sempre. &#8220;Trabalhar \u00e9 o que me faz sentir vivo&#8221;. Naquela manh\u00e3, ele estava no terceiro andar, carregando uma prancha de madeira, quando sentiu uma dor forte no peito &#8211; uma dor que nunca tinha sentido antes, que parecia esmagar seu cora\u00e7\u00e3o. Ele soltou a prancha e se agarrou a um batente de concreto, sentindo falta de ar. &#8220;Ajuda&#8230;&#8221;, sussurrou ele, e os colegas de obra correram para ele.<\/div><div> <\/div><div>Jo\u00e3o Carlos, que ainda trabalhava com ele, levou Luiz ao hospital p\u00fablico em um t\u00e1xi &#8211; o patr\u00e3o pagou a corrida, com medo de algo pior acontecer. Os m\u00e9dicos diagnosticaram um ataque card\u00edaco leve e colocaram um cateter em seu cora\u00e7\u00e3o. &#8220;Voc\u00ea precisa descansar, senhor Luiz&#8221;, disse o m\u00e9dico. &#8220;N\u00e3o pode mais trabalhar em obras &#8211; o esfor\u00e7o \u00e9 muito grande para o seu cora\u00e7\u00e3o&#8221;. Luiz ficou desanimado: trabalhar era a sua vida, a sua forma de ajudar a fam\u00edlia, de se sentir \u00fatil. &#8220;E se eu n\u00e3o trabalhar, o que eu vou fazer?&#8221; perguntou ele, com voz baixa.<\/div><div> <\/div><div>Os filhos foram ao hospital para ver o pai. S\u00f4nia, que era enfermeira, explicou que o ataque card\u00edaco era resultado do esfor\u00e7o de anos de trabalho duro, de falta de descanso e de m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o. &#8220;Voc\u00ea tem que se aposentar, papai&#8221;, disse ela, abra\u00e7ando-o. &#8220;N\u00f3s vamos cuidar de voc\u00ea. Voc\u00ea j\u00e1 fez o seu trabalho&#8221;. Carlos prometeu aumentar o sal\u00e1rio para ajudar a fam\u00edlia, e Elizabeth disse que ele podia ajudar no grupo de leitura &#8211; &#8220;Voc\u00ea pode ensinar as crian\u00e7as a construir coisas com madeira&#8221;, disse ela. &#8220;Isso \u00e9 trabalho, mas sem esfor\u00e7o f\u00edsico&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Luiz foi liberado do hospital tr\u00eas dias depois. Os filhos levaram-no para casa, e Alayde estava esperando ele na porta, com l\u00e1grimas nos olhos. &#8220;Meu amor, voc\u00ea est\u00e1 bem&#8221;, disse ela, abra\u00e7ando-o com cuidado, para n\u00e3o machuc\u00e1-lo. Luiz sorriu fraco: &#8220;Estou bem, meu amor. Mas n\u00e3o posso mais trabalhar na obra&#8221;. Alayde acariciou a cara dele: &#8220;N\u00e3o importa. Voc\u00ea tem a fam\u00edlia, tem a casa. Isso \u00e9 o que importa&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Os primeiros dias em casa foram dif\u00edceis. Luiz estava acostado na cama, sem saber o que fazer &#8211; sentia-se in\u00fatil, sem prop\u00f3sito. Os bisnetos vinham para ver o bisav\u00f4: Elick brincava com a m\u00e3o dele, Italo contava hist\u00f3rias que tinha aprendido na escola, e Isis dormia em seu colo. &#8220;Voc\u00ea \u00e9 o melhor bisav\u00f4 do mundo&#8221;, disse Elick um dia, e Luiz sentiu uma paz que n\u00e3o sentia h\u00e1 tempos. &#8220;Talvez eu possa fazer algo para eles&#8221;, pensou ele.<\/div><div> <\/div><div>Na semana seguinte, Luiz resolveu construir brinquedos para os bisnetos. Ele pegou madeira sobrante de uma reparo na casa e construiu uma carrinha para Elick, uma casinha para Isis e um trem para Italo. Os bisnetos ficaram encantados, e Elick disse: &#8220;Bisav\u00f4, voc\u00ea \u00e9 um mago da madeira!&#8221; Luiz sorriu: &#8220;Eu aprendi com o meu pai, filho. E agora vou ensinar a voc\u00ea&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>A partir da\u00ed, Luiz come\u00e7ou a construir brinquedos para todas as crian\u00e7as do morro. Ele pegava madeira de obra que os colegas deixavam e fazia carrinhos, casinhas, bonecas de madeira. Os vizinhos pagavam o que podiam, mas ele deixava alguns de gra\u00e7a para as fam\u00edlias mais pobres. &#8220;Isso \u00e9 o meu novo trabalho&#8221;, disse ele a Alayde. &#8220;Ajudar as crian\u00e7as a sorrir. Isso \u00e9 mais importante do que qualquer obra&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Alayde sorriu e abra\u00e7ou-o: &#8220;Voc\u00ea sempre encontrou uma forma de ajudar. \u00c9 o que faz de voc\u00ea quem voc\u00ea \u00e9&#8221;. Na noite, Luiz estava sentado na cadeira do quintal, construindo um brinquedo para Isis, e os bisnetos estavam ao seu lado, observando. Ele olhou para o mar, para a casa que constru\u00edra, para a fam\u00edlia que amava, e pensou: &#8220;O ataque card\u00edaco foi um aviso. Mas eu n\u00e3o vou deixar que a vida me derrotasse. Vou continuar ajudando, continuar amando, continuar vivendo&#8221;.<\/div><div>CAP\u00cdTULO 23: A \u00c1GUA ENCANADA QUE CHEGOU AO MORRO E A L\u00c1GRIMA DE ALEGRIA DE ALAYDE<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>Em mar\u00e7o de 1996, uma not\u00edcia que todos os moradores esperavam h\u00e1 anos chegou: a Companhia de \u00c1guas de Niter\u00f3i estava prestes a instalar tubula\u00e7\u00f5es no morro &#8211; finalmente, teriam \u00e1gua encanada em casa. Sr. Ant\u00f4nio, que ainda coordenava as a\u00e7\u00f5es da comunidade, reuniu todos na pra\u00e7a da po\u00e7a de \u00e1gua e anunciou: &#8220;Daqui a duas semanas, cada casa ter\u00e1 uma torneira com \u00e1gua limpa, sem precisar carregar gal\u00f5es pela encosta&#8221;. A multid\u00e3o explodiu em aplausos e gritos de alegria &#8211; algumas mulheres choraram, lembrando dos anos de caminhadas com gal\u00f5es pesados nas m\u00e3os.<\/div><div> <\/div><div>Alayde estava entre elas, com a m\u00e3o de Luiz em sua. Ela sentiu uma l\u00e1grima rolar pelo rosto &#8211; uma l\u00e1grima de alegria que n\u00e3o conseguia conter. &#8220;Eu n\u00e3o acredito&#8221;, sussurrou ela. &#8220;Depois de quase trinta anos aqui, finalmente teremos \u00e1gua em casa&#8221;. Luiz abra\u00e7ou-a: &#8220;Eu prometi a voc\u00ea que a \u00e1gua chegaria. Lembro-me do dia que compramos o terreno &#8211; voc\u00ea estava preocupada, e eu disse que construir\u00edamos tudo. Agora, a \u00e1gua chegou&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Os dias seguintes foram cheios de movimento. Os t\u00e9cnicos da Companhia de \u00c1guas vieram para instalar os postes e as tubula\u00e7\u00f5es, e os moradores ajudaram &#8211; cavando valas para colocar os tubos, carregando material, orientando os t\u00e9cnicos sobre as casas. Luiz, que j\u00e1 n\u00e3o trabalhava na obra, ajudou a medir as dist\u00e2ncias e a cortar madeira para proteger as tubula\u00e7\u00f5es de pedra e mato. &#8220;Isso \u00e9 uma obra mais importante que qualquer edif\u00edcio&#8221;, disse ele aos colegas. &#8220;A \u00e1gua \u00e9 vida&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>A data da inaugura\u00e7\u00e3o foi marcada para o dia 25 de mar\u00e7o &#8211; o anivers\u00e1rio de nascimento de Elizabeth. Toda a fam\u00edlia se reuniu na casa de Luiz e Alayde, esperando pela hora em que a \u00e1gua seria ligada. S\u00f4nia trouxe seus filhos e netos; Carlos veio com Mariana e Carla; Elizabeth com Jo\u00e3o e Sarabeth; Ricardo, que j\u00e1 estava no \u00faltimo ano de Pedagogia, veio com os amigos do grupo de leitura. Os bisnetos &#8211; Elick, Italo e Isis &#8211; corriam pelo quintal, curiosos com o tubo que estava instalado na parede da casa.<\/div><div> <\/div><div>\u00c0s 10 da manh\u00e3, Sr. Ant\u00f4nio ligou a torneira principal do morro. E em cada casa, ao mesmo tempo, a \u00e1gua come\u00e7ou a correr. Alayde foi a primeira a ligar a torneira da sua casa &#8211; \u00e1gua clara, fria, correu pelo bico e caiu no balde que ela tinha preparado. Ela colocou a m\u00e3o na \u00e1gua e sentiu um calor que n\u00e3o era de temperatura &#8211; era o calor da liberdade, da fim de anos de esfor\u00e7o. &#8220;\u00c9 limpa&#8221;, disse ela, com voz tremida. &#8220;Muito limpa&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Os filhos abra\u00e7aram a m\u00e3e, e Elizabeth disse: &#8220;Este \u00e9 o melhor presente de anivers\u00e1rio que eu poderia ter &#8211; ver voc\u00ea feliz com a \u00e1gua em casa&#8221;. Alayde pegou um copo, encheu com \u00e1gua da torneira e bebeu &#8211; foi a primeira vez que bebia \u00e1gua de torneira na sua casa. &#8220;\u00c9 doce&#8221;, disse ela, chorando de novo. &#8220;Mais doce que o suco de acerola que Luiz me comprou no primeiro encontro&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Luiz pegou a m\u00e3o de Alayde e levou-a at\u00e9 a janela, onde eles podiam ver todo o morro. As torneiras estavam ligadas em todas as casas, e os moradores estavam celebrando &#8211; cantando, dan\u00e7ando, bebendo \u00e1gua e abra\u00e7ando-se. &#8220;Olha&#8221;, disse Luiz. &#8220;Toda a comunidade est\u00e1 feliz. N\u00f3s fizemos isso juntos&#8221;. Alayde sorriu e beijou o marido: &#8220;Voc\u00ea construiu a nossa casa, e a comunidade construiu o resto. Juntos, somos invenc\u00edveis&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na noite, todos os moradores se reuniram para um jantar comunit\u00e1rio &#8211; com arroz, feij\u00e3o, frango e um bolo que Dona Maria preparou com \u00e1gua da torneira. Alayde foi convidada para falar, e disse: &#8220;Eu passei anos carregando \u00e1gua pela encosta, com a coluna doente e crises de asma. Hoje, a \u00e1gua chegou &#8211; e com ela, a esperan\u00e7a de um futuro melhor para os nossos filhos e netos. Obrigada a todos voc\u00eas, e obrigada a voc\u00ea, Luiz &#8211; por nunca ter desistido de n\u00f3s&#8221;. Os aplausos foram enormes, e a lua brilhava no c\u00e9u, refletida na \u00e1gua da po\u00e7a que a comunidade tinha constru\u00eddo anos atr\u00e1s &#8211; uma po\u00e7a que agora era s\u00f3 um lembrete do passado, mas que representava toda a luta que eles tinham vencido.<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>CAP\u00cdTULO 24: A FORMATURA DE RICARDO E O NOVA GRUPO DE LEITURA E BRINQUEDOS<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>Em dezembro de 1997, Ricardo completou o curso de Pedagogia na UFF &#8211; a quarta filha do casal a se formar em superior. A formatura foi em uma manh\u00e3 de sol, com toda a fam\u00edlia presente &#8211; incluindo os bisnetos, que vestiam roupas novas feitas por Alayde. Ricardo vestiu a toga preta e a barra azul, e quando subiu ao palco para pegar o diploma, viu Luiz e Alayde no primeiro fileira, sorrindo e chorando de alegria.<\/div><div> <\/div><div>Ao receber o diploma, Ricardo falou em seu discurso: &#8220;Eu devo tudo isso \u00e0 minha fam\u00edlia &#8211; especialmente ao meu pai, que me ensinou que a for\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 no corpo, mas no cora\u00e7\u00e3o, e \u00e0 minha m\u00e3e, que me ensinou que a paci\u00eancia vence todas as dificuldades. E aos bisnetos, que me mostram que a felicidade est\u00e1 em pequenas coisas &#8211; como um brinquedo de madeira ou uma hist\u00f3ria lida&#8221;. Os aplausos foram fortes, e Elick gritou &#8220;Tio Ricardo \u00e9 professor!&#8221; t\u00e3o alto que todos ao redor se viraram para olhar.<\/div><div> <\/div><div>Na semana seguinte, Ricardo anunciou a cria\u00e7\u00e3o do &#8220;Grupo de Leitura e Brinquedos do Morro&#8221; &#8211; uma jun\u00e7\u00e3o do trabalho de Elizabeth com o que ele tinha aprendido com o pai. Ele alugou um espa\u00e7o maior na base do morro, e Luiz ajudou a construir estantes para livros e mesas para as crian\u00e7as. Ricardo ensinava a ler e a escrever pela manh\u00e3, e pela tarde, ele e Luiz ensinavam as crian\u00e7as a construir brinquedos com madeira &#8211; carrinhos, casinhas, bonecas. &#8220;A leitura abre a mente, e a m\u00e3o aberta abre o cora\u00e7\u00e3o&#8221;, disse Ricardo a os pais.<\/div><div> <\/div><div>O grupo cresceu r\u00e1pido &#8211; em menos de um m\u00eas, j\u00e1 tinha mais de cinquenta crian\u00e7as participando. Alayde ajudava a preparar lanches para as crian\u00e7as, usando \u00e1gua da torneira e farinha de mandioca que ela fazia. &#8220;\u00c9 lindo ver elas brincar e aprender&#8221;, disse ela a Luiz um dia, enquanto observava as crian\u00e7as construindo brinquedos. &#8220;N\u00f3s estamos deixando um legado&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Um dia, uma crian\u00e7a chamada Ana, de oito anos, que vivia em uma fam\u00edlia pobre do morro, mostrou o carrinho que tinha constru\u00eddo com Ricardo e Luiz. &#8220;Este \u00e9 o melhor brinquedo que eu j\u00e1 tive&#8221;, disse ela, sorrindo. &#8220;Vou guard\u00e1-lo para o meu filho&#8221;. Luiz abra\u00e7ou a crian\u00e7a: &#8220;Isso \u00e9 o que queremos, filha. Que o que aprendemos aqui continue com as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na noite de Natal de 1997, o grupo de leitura e brinquedos organizou uma apresenta\u00e7\u00e3o: as crian\u00e7as leram hist\u00f3rias que tinham escrito e mostrou os brinquedos que tinham constru\u00eddo. Alayde e Luiz estavam no primeiro fileira, e quando Ana mostrou o carrinho, Alayde chorou de emo\u00e7\u00e3o. &#8220;Eu nunca imaginei que a nossa vida chegaria a isso&#8221;, disse ela a Luiz. &#8220;Uma casa com \u00e1gua e luz, filhos formados, netos e bisnetos felizes. Tudo o que n\u00f3s sonhamos&#8221;. Luiz sorriu e acariciou a m\u00e3o dela: &#8220;E ainda temos mais coisas para sonhar, meu amor. A vida n\u00e3o acaba nunca&#8221;.<\/div><div>CAP\u00cdTULO 25: A PIORA DA ASMA DE ALEGRIA E A FOR\u00c7A DA FAM\u00cdLIA JUNTA<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>Em junho de 2001, quando Alayde tinha sessenta e seis anos, as crises de asma que ela levava desde a inf\u00e2ncia come\u00e7aram a piorar drasticamente. A polui\u00e7\u00e3o do ar no morro, mesmo com as melhorias nas condi\u00e7\u00f5es de vida, agravava os seus pulm\u00f5es &#8211; ela tinha dificuldade para respirar, mesmo em dias calmos, e as crises vinham com mais frequ\u00eancia e for\u00e7a. Um dia, ela estava ajudando Elizabeth a preparar o jantar quando sentiu uma falta de ar que pareceu sufoc\u00e1-la &#8211; os pulm\u00f5es pareciam se fechar, e ela caiu no ch\u00e3o, tossindo e chorando.<\/div><div> <\/div><div>Ricardo, que estava na sala de estudo, ouviu os gritos e correu at\u00e9 ela. Ele levou-a para a cama e chamou S\u00f4nia, que chegou em minutos com o kit de emerg\u00eancia de enfermeira. &#8220;\u00c9 uma crise grave, mam\u00e3e&#8221;, disse S\u00f4nia, administrando um rem\u00e9dio por inala\u00e7\u00e3o. &#8220;Temos que levar voc\u00ea ao hospital&#8221;. Alayde acenou com a cabe\u00e7a, sem conseguir falar, e os filhos carregaram-na at\u00e9 o carro de Carlos, que levou-a ao hospital p\u00fablico mais pr\u00f3ximo.<\/div><div> <\/div><div>Os m\u00e9dicos diagnosticaram uma agudiza\u00e7\u00e3o da asma cr\u00f4nica e disseram que Alayde precisava de um tratamento cont\u00ednuo &#8211; rem\u00e9dios caros, inala\u00e7\u00f5es di\u00e1rias e repouso absoluto. &#8220;Ela n\u00e3o pode mais fazer esfor\u00e7os&#8221;, disse o m\u00e9dico a S\u00f4nia. &#8220;A slightest fadiga pode piorar a situa\u00e7\u00e3o&#8221;. Os filhos ficaram preocupados &#8211; Alayde sempre era a que cuidava de todos, e agora era ela quem precisava de cuidado.<\/div><div> <\/div><div>Luiz, que tinha sessenta e oito anos, resolveu se tornar o principal cuidador da esposa. Ele parou de construir brinquedos para as crian\u00e7as do grupo &#8211; pelo menos por um tempo &#8211; e passou todos os dias ao lado de Alayde. Ele preparava o caf\u00e9 da manh\u00e3, ajudava-a a tomar os rem\u00e9dios, carregava-a at\u00e9 a cadeira do quintal para ver o sol e o mar. &#8220;Eu vou cuidar de voc\u00ea, meu amor&#8221;, disse ele um dia, acariciando o cabelo dela. &#8220;Como voc\u00ea cuidou de mim quando eu teve o ataque card\u00edaco&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Os filhos tamb\u00e9m se organizaram: S\u00f4nia vinha todos os dias ap\u00f3s o trabalho para fazer as inala\u00e7\u00f5es de Alayde e checar os seus sinais vitais; Carlos pagava pela maior parte dos rem\u00e9dios com o sal\u00e1rio da loja de eletr\u00f4nicos; Elizabeth levava os bisnetos para ver a av\u00f3 todos os finais de semana, para que ela n\u00e3o se sentisse sozinha; Ricardo ajustou o hor\u00e1rio do grupo de leitura para poder ajudar o pai com os afazeres da casa.<\/div><div> <\/div><div>Um dia, Elick, com onze anos, chegou \u00e0 casa com um desenho que tinha feito. Ele mostrou para Alayde: era uma figura de uma mulher com asas, voando sobre o morro, com a \u00e1gua da torneira correndo nas m\u00e3os. &#8220;Isso \u00e9 voc\u00ea, av\u00f3&#8221;, disse ele. &#8220;Voc\u00ea \u00e9 um anjo que ajuda todo mundo&#8221;. Alayde sorriu e abra\u00e7ou o bisneto: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 o meu anjo, Elick. Voc\u00ea me faz querer continuar&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na semana seguinte, os bisnetos organizaram uma pequena festa na casa para Alayde. Eles prepararam um bolo de chocolate (com a ajuda de Elizabeth), cantaram m\u00fasicas que ela gostava e fizeram desenhos para ela. Isis, com cinco anos, deu a Alayde um brinquedo de madeira &#8211; um pequeno p\u00e1ssaro que Luiz tinha constru\u00eddo para ela. &#8220;Av\u00f3, esse p\u00e1ssaro voa alto&#8221;, disse Isis. &#8220;Igual a voc\u00ea&#8221;. Alayde chorou de emo\u00e7\u00e3o e abra\u00e7ou todos os bisnetos: &#8220;Eu tenho a fam\u00edlia mais linda do mundo. Isso \u00e9 o que me sustenta&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>No final da festa, Luiz sentou-se ao lado de Alayde na cadeira do quintal. O sol estava se pondo, e a vista do mar era linda. &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 melhor, meu amor&#8221;, disse Luiz. &#8220;A fam\u00edlia te ajuda a respirar&#8221;. Alayde acariciou a m\u00e3o dele: &#8220;Sim. Voc\u00eas todos s\u00e3o o meu ar, Luiz. Sem voc\u00eas, eu n\u00e3o conseguiria&#8221;. E naquele momento, ela sentiu que a asma tinha diminu\u00eddo &#8211; que a for\u00e7a da fam\u00edlia era mais forte que qualquer doen\u00e7a.<\/div><div> <\/div><div> <\/div><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CAP\u00cdTULO 22: O ATAQUE CARD\u00cdACO DE LUIZ E A LUTA POR ALEGRIA Em novembro de 1994, quando Luiz tinha sessenta e um anos, ele estava trabalhando em uma obra de edif\u00edcio no centro do Rio &#8211; ainda trabalhava todos os dias, mesmo que os filhos pedissem para ele se aposentar. &#8220;Eu n\u00e3o sei ficar parado&#8221;, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1],"tags":[21],"class_list":["post-101","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","tag-livros"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/phgeRL-1D","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=101"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":102,"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/101\/revisions\/102"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=101"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=101"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=101"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}