{"id":103,"date":"2026-05-18T03:36:48","date_gmt":"2026-05-18T03:36:48","guid":{"rendered":"https:\/\/biobit.online\/?p=103"},"modified":"2026-05-18T03:41:04","modified_gmt":"2026-05-18T03:41:04","slug":"103-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/biobit.online\/it\/103-2\/","title":{"rendered":"O Sonho que o Amor construiu"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CAP\u00cdTULO 26: O RETORNO \u00c0 SERRA DE MANHUACU E O ENCONTRO COM O PASSADO<div> <\/div><div> <\/div><div>Em setembro de 2003, Luiz teve uma ideia: queria voltar \u00e0 serra de Manhua\u00e7u, para ver o lugar onde tinha nascido, onde tinha aprendido a cortar madeira com o pai. &#8220;J\u00e1 faz mais de quarenta anos que n\u00e3o estou l\u00e1&#8221;, disse ele a Alayde. &#8220;Quero ver a ro\u00e7a, o machado que o pai me deu &#8211; se ainda est\u00e1 l\u00e1&#8221;. Alayde, que j\u00e1 estava melhor da asma, acenou com a cabe\u00e7a: &#8220;Vamos. Eu quero conhecer o lugar que voc\u00ea sempre me contou&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Os filhos ajudaram a preparar a viagem: Carlos alugou um carro confort\u00e1vel para que Alayde n\u00e3o se cansasse; S\u00f4nia preparou um kit de primeiros socorros; Elizabeth levou um caderno para escrever sobre a viagem; Ricardo levou a c\u00e2mera de Carlos para tirar fotos. Os bisnetos tamb\u00e9m foram &#8211; eles queriam ver a &#8220;serra dos av\u00f3s&#8221;, como chamavam.<\/div><div> <\/div><div>A viagem durou quase doze horas. Luiz estava sentado na frente, olhando pela janela, enquanto as serras iam ficando mais pr\u00f3ximas. Quando chegaram a Manhua\u00e7u, ele sentiu uma saudade que apertava o peito &#8211; a ar frio, o cheiro de madeira e terra, o som dos p\u00e1ssaros que ele conhecia de crian\u00e7a. &#8220;Estou em casa&#8221;, sussurrou ele.<\/div><div> <\/div><div>Eles foram at\u00e9 a ro\u00e7a onde Luiz tinha vivido. A casa de barro onde ele morara com o pai e a m\u00e3e j\u00e1 n\u00e3o existia &#8211; s\u00f3 restavam alguns pedras e um tronco de pinheiro que o pai tinha cortado. Mas o machado que o pai me deu ainda estava l\u00e1, enterrado embaixo de uma pedra, como Luiz tinha deixado. Ele cavou a pedra com as m\u00e3os e pegou o machado &#8211; estava oxidado, mas a l\u00e2mina ainda era n\u00edtida. &#8220;Meu pai&#8221;, disse ele, com l\u00e1grimas nos olhos. &#8220;Ele est\u00e1 aqui&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Os bisnetos olharam o machado com curiosidade, e Elick perguntou: &#8220;Bisav\u00f4, voc\u00ea cortava madeira com isso?&#8221; Luiz sorriu e acenou: &#8220;Sim, meu filho. Com esse machado, eu constru\u00ed a primeira cerca da ro\u00e7a. E depois, constru\u00ed a nossa casa no morro&#8221;. Ele ensinou a Elick e a Italo a segurar o machado com cuidado, e disse: &#8220;A madeira n\u00e3o mente &#8211; se voc\u00ea tratar bem, ela te segura. Isso \u00e9 o que o meu pai me ensinou&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Alayde caminhou pela ro\u00e7a, olhando para os campos e as montanhas. &#8220;\u00c9 um lugar lindo&#8221;, disse ela a Luiz. &#8220;Agora entendo por que voc\u00ea sempre fala de aqui&#8221;. Luiz abra\u00e7ou-a: &#8220;\u00c9 lindo, mas o nosso lar est\u00e1 no morro. Com a fam\u00edlia&#8221;. Eles foram visitar a sepultura do pai de Luiz, que estava em um cemit\u00e9rio pequeno na cidade. Luiz colocou uma flor na sepultura e disse: &#8220;Pai, eu constru\u00ed uma fam\u00edlia. Eu fiz o que voc\u00ea me pediu &#8211; usei o machado para construir, n\u00e3o para destruir&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na volta para o Rio, Luiz ficou sentado na frente, segurando o machado oxidado em suas m\u00e3os. Os bisnetos dormiam no fundo do carro, e os filhos conversavam sobre a viagem. &#8220;Foi um momento importante&#8221;, disse Elizabeth. &#8220;Conhecer o passado ajuda a entender o presente&#8221;. Luiz sorriu: &#8220;O passado nos deu for\u00e7a. O presente nos deu felicidade. E o futuro vai ser ainda melhor&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Quando chegaram ao morro, j\u00e1 de noite, todos os vizinhos estavam esperando para ouvir sobre a viagem. Luiz mostrou o machado do pai e contou sobre a ro\u00e7a, sobre a casa que j\u00e1 n\u00e3o existia, sobre a sepultura. Os vizinhos ouviram com aten\u00e7\u00e3o, e Sr. Ant\u00f4nio disse: &#8220;Esse machado \u00e9 um legado. Ele representa toda a luta que voc\u00ea teve para construir a sua fam\u00edlia&#8221;. Luiz colocou o machado na sala da casa, em uma prateleira que constru\u00edra para ele. &#8220;Ele vai ficar aqui&#8221;, disse ele a Alayde. &#8220;Para lembrar a todos de onde viemos&#8221;.<\/div><div>CAP\u00cdTULO 27: A APROVA\u00c7\u00c3O DE CARLA NA ARQUITETURA E O SONHO DE REFORMAR A CASA<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>Em janeiro de 2005, Carla &#8211; filha de Carlos e Mariana &#8211; tinha vinte anos e estava esperando o resultado do vestibular para a faculdade de Arquitetura da UFF. Ela tinha estudado duro por dois anos, ajudada por S\u00f4nia (com ci\u00eancias), Elizabeth (com portugu\u00eas) e Ricardo (com matem\u00e1tica). &#8220;Quero ser arquiteta para construir casas bonitas e seguras para o morro&#8221;, disse ela a av\u00f3s um dia. &#8220;Para que ningu\u00e9m tenha que viver em casas de barro como voc\u00eas no in\u00edcio&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>O dia do resultado chegou em uma manh\u00e3 de sol. Carla estava na casa de Luiz e Alayde, com toda a fam\u00edlia ao seu lado, quando Carlos chegou com o jornal em m\u00e3os. &#8220;A lista saiu!&#8221;, gritou ele. Carla pegou o jornal com m\u00e3os tremidas e virou as p\u00e1ginas at\u00e9 encontrar a lista de arquitetura. Ali, no 17\u00ba lugar &#8211; um lugar de bolsa integral &#8211; estava seu nome: &#8220;CARLA RAFAELA SILVA JARDIM &#8211; APROVADA&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>No mesmo instante, ela desmaiou de alegria. Quando acordou, estava em bra\u00e7os de Alayde, que chorava: &#8220;Minha neta! Arquiteta! Eu sempre soube que voc\u00ea era especial!&#8221; Luiz abra\u00e7ou-a forte: &#8220;Voc\u00ea vai construir coisas grandes, Carla. Maior do que eu j\u00e1 imaginei&#8221;. Os bisnetos pulavam de alegria, e Elick gritou: &#8220;Tia Carla \u00e9 arquiteta! Vai reformar a nossa casa!&#8221;<\/div><div> <\/div><div>A not\u00edcia se espalhou pelo morro, e os vizinhos vieram parar para dar parab\u00e9ns. Dona Maria trouxe um bolo de coco com &#8220;Parab\u00e9ns, Arquiteta!&#8221; escrito em creme, e Sr. Ant\u00f4nio disse: &#8220;Agora o morro tem a sua pr\u00f3pria arquiteta. N\u00f3s vamos ter casas melhores, gra\u00e7as a voc\u00ea&#8221;. Carla sorriu: &#8220;Tudo isso \u00e9 gra\u00e7as a voc\u00eas, a av\u00f3s e aos pais. Voc\u00eas me mostraram que a luta vale a pena&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na semana seguinte, Carla matriculou-se na faculdade. Luiz e Alayde foram com ela &#8211; foi a primeira vez que eles entravam no departamento de Arquitetura, e ficaram impressionados com os modelos de casas e edif\u00edcios que estavam expostos. &#8220;Isso \u00e9 o que voc\u00ea vai fazer?&#8221;, perguntou Luiz, apontando para um modelo de um edif\u00edcio sustent\u00e1vel. Carla acenou: &#8220;Sim, av\u00f4. Casas que resistem a chuvas, que t\u00eam luz e \u00e1gua, e que s\u00e3o bonitas. Igual a nossa, mas melhor&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Um m\u00eas depois, Carla apresentou um projeto a fam\u00edlia: reformar a casa do morro de Luiz e Alayde. &#8220;Ela \u00e9 pequena, e as paredes de barro j\u00e1 est\u00e3o rachadas&#8221;, disse ela. &#8220;Vou fazer um projeto que mantenha o estilo original, mas que seja mais segura e confort\u00e1vel. Com um quarto extra para os bisnetos, uma cozinha maior e uma varanda com vista para o mar&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>A fam\u00edlia adotou a ideia de imediato. Carlos prometeu pagar a maior parte dos materiais com o sal\u00e1rio da loja de eletr\u00f4nicos &#8211; que agora era uma loja que ele pr\u00f3prio tinha comprado. S\u00f4nia prometeu ajudar com o planejamento da \u00e1rea de banho, para que fosse acess\u00edvel a Alayde. Elizabeth prometeu ajudar a escolher as cores da casa. Ricardo prometeu ajudar a construir as paredes, com a orienta\u00e7\u00e3o de Carla. E Luiz prometeu usar o machado do pai para cortar madeira para as janelas e as portas.<\/div><div> <\/div><div>&#8220;Vamos construir uma nova casa sobre a antiga&#8221;, disse Luiz a Alayde. &#8220;Para que ela continue sendo o nosso lar, mas com mais conforto para voc\u00ea&#8221;. Alayde abra\u00e7ou-o: &#8220;Eu amo a nossa casa como ela \u00e9, mas a ideia de ter uma varanda com vista para o mar me faz feliz&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na manh\u00e3 do primeiro dia de obras, toda a fam\u00edlia se reuniu na casa. Carla colocou a primeira pedra &#8211; uma pedra que Luiz tinha trazido da serra de Manhua\u00e7u. &#8220;Essa pedra representa o nosso passado&#8221;, disse ela. &#8220;E a casa que vamos construir representa o nosso futuro&#8221;. Luiz pegou o machado do pai e cortou a primeira prancha de madeira para a janela: &#8220;Pai, ajuda a sua neta a construir. Ela vai fazer coisas grandes&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Naquele momento, o sol brilhava na fachada da casa, a \u00e1gua da torneira corria, e a fam\u00edlia estava unida &#8211; construindo, sonhando e amando. Alayde sentou-se na cadeira do quintal e olhou para tudo, sorrindo: &#8220;Nossa casa vai ficar perfeita. Tudo o que n\u00f3s temos \u00e9 perfeita&#8221;.<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>CAP\u00cdTULO 28: A REFORMA DA CASA E A VARANDA COM VISTA PARA O MAR<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>As obras da reforma come\u00e7aram em mar\u00e7o de 2005. Carla supervisionava tudo com cuidado &#8211; medindo, desenhando, explicando aos trabalhadores (que eram vizinhos do morro) como construir as paredes de concreto que substituiriam o barro, mas mantendo o telhado de palha original para preservar o estilo da casa. &#8220;A palha \u00e9 parte da nossa hist\u00f3ria&#8221;, disse ela. &#8220;N\u00e3o podemos tir\u00e1-la&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Luiz passava todos os dias cortando madeira para as janelas e as portas com o machado do pai. A l\u00e2mina, j\u00e1 limpa e afiada, cortava a madeira com facilidade &#8211; como se o pai de Luiz estivesse ali, ajudando. &#8220;Ele est\u00e1 feliz&#8221;, disse Luiz a Alayde, enquanto acabava uma janela. &#8220;Vejo no brilho do machado&#8221;. Alayde sorriu: &#8220;Ele sempre est\u00e1 com a gente&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Os filhos ajudavam todos os dias ap\u00f3s o trabalho: Carlos consertava as instala\u00e7\u00f5es el\u00e9tricas; S\u00f4nia ajudava a planejar a \u00e1rea de banho, colocando uma rampa para que Alayde pudesse acessar com facilidade; Elizabeth escolhia as cores &#8211; azul claro para as paredes, branco para as portas &#8211; que combinavam com a vista do mar; Ricardo ajudava a colocar as pranchas de madeira nas janelas. Os bisnetos tamb\u00e9m ajudavam, levando material pequeno e arrumando os detritos das obras.<\/div><div> <\/div><div>Um m\u00eas depois, as paredes novas estavam prontas, e a varanda que Carla tinha projetado come\u00e7ou a tomar forma. Ela era grande, com espa\u00e7o para uma mesa e cadeiras, e tinha uma vista perfeita para o mar &#8211; desde ali, era poss\u00edvel ver o P\u00e3o de A\u00e7\u00facar e o Cristo Redentor no horizonte. &#8220;Quando a varanda estiver pronta, voc\u00ea poder\u00e1 sentar ali todos os dias, av\u00f3&#8221;, disse Carla a Alayde. &#8220;Ver o sol nascer e o mar&#8221;. Alayde chorou de emo\u00e7\u00e3o: &#8220;\u00c9 o que eu sempre sonhei&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na semana seguinte, a varanda foi terminada. Luiz construiu uma mesa e cadeiras de madeira para ali, com detalhes que Carla tinha desenhado &#8211; figuras de p\u00e1ssaros e flores que representavam a serra de Manhua\u00e7u e o mar de Niter\u00f3i. &#8220;\u00c9 a uni\u00e3o do nosso passado e do nosso futuro&#8221;, disse Luiz. Alayde foi a primeira a sentar na cadeira da varanda. Ela olhou para o mar, para o morro, para a fam\u00edlia que trabalhava nas obras, e sentiu uma paz que nunca tinha sentido antes. &#8220;Eu estou em um sonho&#8221;, sussurrou ela.<\/div><div> <\/div><div>Os bisnetos correram para a varanda e sentaram-se ao lado de Alayde. Elick pegou um livro que Elizabeth tinha escrito e come\u00e7ou a ler para ela: &#8220;A casa do morro tem uma varanda com vista para o mar. Ali, a av\u00f3 senta e v\u00ea os p\u00e1ssaros voarem. Ela \u00e9 feliz&#8221;. Alayde abra\u00e7ou o bisneto: &#8220;Voc\u00ea l\u00ea muito bem, Elick. Eu sou muito orgulhosa de voc\u00ea&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na noite da inaugura\u00e7\u00e3o da varanda, toda a fam\u00edlia se reuniu ali para jantar. Carla preparou um prato especial &#8211; frango assado com legumes que ela tinha plantado no quintal &#8211; e Elizabeth preparou um bolo de chocolate. Luiz levantou o copo de suco de acerola e disse: &#8220;Hoje, n\u00f3s inauguramos essa varanda &#8211; um lugar de paz e felicidade. Obrigado a Carla, que fez esse projeto com amor. Obrigado a todos os filhos e netos, que ajudaram a construir. E obrigado a voc\u00ea, Alayde &#8211; por ser a nossa for\u00e7a todos esses anos&#8221;. Todos levantaram os copos e gritaram: &#8220;Viva a fam\u00edlia! Viva a varanda! Viva o mar!&#8221;<\/div><div> <\/div><div>A lua brilhava no c\u00e9u, refletida no mar, e a brisa salgada soprava na varanda. Alayde sentou-se na cadeira que Luiz tinha constru\u00eddo, acariciou a m\u00e3o dele, e olhou para a fam\u00edlia. &#8220;Tudo o que n\u00f3s passamos &#8211; a fome, a tristeza, a luta &#8211; valia a pena&#8221;, disse ela. &#8220;Porque agora, temos isso. Um lar, uma fam\u00edlia, e uma vista para o mar que nunca acaba&#8221;.<\/div><div>CAP\u00cdTULO 29: O PRIMEIRO BISBISNETO E A EMO\u00c7\u00c3O DE SER TATARAV\u00d3S<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>Em julho de 2015, quando Luiz tinha oitenta e dois anos e Alayde, setenta e dez, uma not\u00edcia chegou que deixou toda a fam\u00edlia em \u00eaxtase: Elick, com vinte e cinco anos, e sua namorada, Camila, estavam gr\u00e1vidos. &#8220;Vamos ter um bisbisneto&#8221;, disse Elick, ao chegar na casa de av\u00f3s com Camila ao lado. &#8220;Voc\u00eas v\u00e3o ser tatarav\u00f3s&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Alayde, que estava sentada na varanda com vista para o mar, soltou o copo de ch\u00e1 que estava holding e abra\u00e7ou o neto com for\u00e7a. &#8220;Um bisbisneto&#8221;, sussurrou ela, com l\u00e1grimas de alegria correndo pelo rosto. &#8220;Eu nunca imaginei chegar at\u00e9 aqui. Que b\u00ean\u00e7\u00e3o do Senhor&#8221;. Luiz, que estava cortando madeira para um brinquedo, deixou o machado e chegou at\u00e9 eles: &#8220;Nossa fam\u00edlia cresce mais uma vez. O legado continua, Elick&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Os meses seguintes foram cheios de preparativos. Carla, que j\u00e1 era arquiteta formada, projetou um ber\u00e7o de madeira moderno, mas com detalhes do ber\u00e7o que Luiz tinha feito para Carlos &#8211; figuras de p\u00e1ssaros e flores. Luiz ajudou a construir o ber\u00e7o, usando o machado do pai e madeira que tinha trazido da serra de Manhua\u00e7u. &#8220;Este ber\u00e7o vai passar de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o&#8221;, disse ele, acabando o \u00faltimo detalhe.<\/div><div> <\/div><div>Alayde fez roupas de beb\u00ea com pano de algod\u00e3o macio &#8211; uma blusa branca com bordados de flores, cal\u00e7as azuis e um touquinho de l\u00e3. &#8220;\u00c9 o mesmo modelo que fiz para S\u00f4nia, anos atr\u00e1s&#8221;, disse ela a Elizabeth. &#8220;Quero que o bisbisneto use o que a sua tatarav\u00f3 fez com amor&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Em mar\u00e7o de 2016, Camila entrou em trabalho de parto no hospital p\u00fablico de Niter\u00f3i. Toda a fam\u00edlia esteve presente &#8211; desde Luiz e Alayde (que foram levados em carro por Carlos) at\u00e9 os outros bisnetos, que esperavam ansiosos na sala de espera. Quando o m\u00e9dico saiu da sala de parto e anunciou &#8220;\u00c9 um menino!&#8221;, toda a sala explodiu em aplausos e gritos de alegria.<\/div><div> <\/div><div>Luiz e Alayde foram os primeiros a entrar na sala. Camila estava deitada na cama, com o pequeno beb\u00ea em seus bra\u00e7os. Alayde se aproximou com cuidado, e Camila colocou o beb\u00ea em seus bra\u00e7os. O bisbisneto tinha cabelos castanhos e olhos azuis &#8211; igual a Ricardo e Elick. &#8220;Como vamos cham\u00e1-lo?&#8221;, perguntou Alayde, com voz tremida. Elick sorriu: &#8220;Luiz Alayde. Em homenagem a voc\u00eas, tatarav\u00f3s&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Alayde chorou de emo\u00e7\u00e3o e olhou para Luiz, que estava ao seu lado, com os olhos cheios de l\u00e1grimas. &#8220;Luiz Alayde&#8221;, repetiu ela. &#8220;Perfeito. Ele tem o nome dos seus tatarav\u00f3s&#8221;. Luiz beijou a testa do pequeno Luiz Alayde e disse: &#8220;Voc\u00ea vai ser forte, meu filho. Igual a todos os homens da nossa fam\u00edlia. Vai construir, vai sonhar, vai amar&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na volta para o morro, o carro estava cheio de alegria &#8211; os netos cantavam, os bisnetos brincavam, e Luiz e Alayde seguravam o beb\u00ea com cuidado. Quando chegaram \u00e0 casa, os vizinhos estavam esperando na porta com flores e um bolo de coco. Sr. Ant\u00f4nio, que j\u00e1 tinha oitenta e cinco anos, abra\u00e7ou Luiz: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 o primeiro do morro a ser tatarav\u00f3, amigo. Isso \u00e9 um exemplo para todos n\u00f3s&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na noite, toda a fam\u00edlia se reuniu na varanda. O pequeno Luiz Alayde dormia no ber\u00e7o que Luiz e Carla tinham constru\u00eddo, e todos olhavam para ele com amor. S\u00f4nia disse: &#8220;Ele \u00e9 o resultado de toda a nossa luta. De todos os sacrif\u00edcios que voc\u00eas, av\u00f3s, fizeram&#8221;. Elizabeth escreveu uma hist\u00f3ria chamada &#8220;O Tatarav\u00f3 do Morro e o Mar&#8221;, e leu para todos. Ricardo prometeu ensinar o pequeno Luiz Alayde a ler e a construir brinquedos quando ele crescesse.<\/div><div> <\/div><div>Luiz sentou-se ao lado de Alayde na cadeira da varanda, olhando para o mar e para o beb\u00ea. &#8220;Tudo o que n\u00f3s fizemos, tudo o que n\u00f3s passamos, foi para isso&#8221;, disse ele. &#8220;Para ver a quinta gera\u00e7\u00e3o da nossa fam\u00edlia dormir tranquila na nossa casa&#8221;. Alayde acariciou a m\u00e3o dele: &#8220;Sim, meu amor. N\u00f3s conseguimos. Nossa hist\u00f3ria est\u00e1 escrita, e ela vai continuar com ele&#8221;.<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div> <\/div><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CAP\u00cdTULO 26: O RETORNO \u00c0 SERRA DE MANHUACU E O ENCONTRO COM O PASSADO Em setembro de 2003, Luiz teve uma ideia: queria voltar \u00e0 serra de Manhua\u00e7u, para ver o lugar onde tinha nascido, onde tinha aprendido a cortar madeira com o pai. &#8220;J\u00e1 faz mais de quarenta anos que n\u00e3o estou l\u00e1&#8221;, disse [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1],"tags":[21],"class_list":["post-103","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","tag-livros"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/phgeRL-1F","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/103","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/it\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/it\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/it\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=103"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/biobit.online\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/103\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":107,"href":"https:\/\/biobit.online\/it\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/103\/revisions\/107"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/it\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=103"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/it\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=103"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/it\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=103"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}