{"id":99,"date":"2026-05-18T03:32:49","date_gmt":"2026-05-18T03:32:49","guid":{"rendered":"https:\/\/biobit.online\/?p=99"},"modified":"2026-05-18T03:41:40","modified_gmt":"2026-05-18T03:41:40","slug":"99-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/biobit.online\/fr\/99-2\/","title":{"rendered":"O Sonho que o Amor construiu"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CAP\u00cdTULO 17: A APROVA\u00c7\u00c3O DE S\u00d4NIA NA FACULDADE E A ALEGRIA QUE ILUMINOU O MORRO<div> <\/div><div> <\/div><div>O ver\u00e3o de 1983 foi o mais esperado da fam\u00edlia. S\u00f4nia, com dezoito anos, tinha feito o vestibular para a faculdade de Enfermagem da Universidade Federal Fluminense (UFF) &#8211; o \u00fanico curso p\u00fablico de enfermagem da regi\u00e3o, e a \u00fanica chance que ela tinha de estudar superior sem pagar caro. Os dias passaram como uma eternidade enquanto esperavam o resultado. S\u00f4nia passava horas estudando ainda mais, com medo de n\u00e3o ter conseguido; Alayde rezava todos os dias na igreja do morro; Luiz, que j\u00e1 tinha recuperado a perna e voltado \u00e0 obra, trazia jornais todos os dias para ver se o resultado havia sa\u00eddo.<\/div><div> <\/div><div>Um dia de junho, Carlos voltou da base do morro com um jornal em m\u00e3os, correndo e gritando: &#8220;S\u00f4nia! S\u00f4nia! O resultado saiu!&#8221; Toda a fam\u00edlia se reuniu na sala da casa, e S\u00f4nia pegou o jornal com m\u00e3os tremidas. Ela virou as p\u00e1ginas at\u00e9 chegar \u00e0 lista de aprovados da UFF &#8211; e ali, no meio de centenas de nomes, viu: &#8220;S\u00d4NIA MARIA SILVA JARDIM &#8211; APROVADA&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>No primeiro momento, ela n\u00e3o conseguiu falar &#8211; s\u00f3 chorou, com l\u00e1grimas de alegria que corriam pelo rosto. Alayde abra\u00e7ou-a com for\u00e7a, chorando tamb\u00e9m: &#8220;Minha filha! Voc\u00ea conseguiu! Eu sempre soube que conseguiria!&#8221; Luiz agarrou a filha e beijou a testa dela, com os olhos cheios de l\u00e1grimas &#8211; a promessa que ele tinha feito no dia do seu nascimento, de que ela aprenderia a ler e teria uma vida melhor, estava cumprida. Carlos pulou de alegria e abra\u00e7ou a irm\u00e3: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 a primeira da fam\u00edlia a entrar na faculdade! Que orgulho!&#8221; Elizabeth pegou o jornal e leu o nome de S\u00f4nia diversas vezes: &#8220;S\u00f4nia, voc\u00ea vai ser a melhor enfermeira do mundo. E vai ajudar todo mundo do morro&#8221;. Ricardo, com dez anos, correu at\u00e9 a irm\u00e3 e deu-lhe um beijo: &#8220;Parab\u00e9ns, irm\u00e3! Vou estudar muito para ser como voc\u00ea&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>A not\u00edcia se espalhou pelo morro como fogo em mato seco. Os vizinhos vieram parar na casa de Luiz e Alayde para dar parab\u00e9ns &#8211; Dona Maria trouxe um bolo de coco, Sr. Ant\u00f4nio trouxe uma garrafa de suco de acerola, e outros trouxeram arroz e feij\u00e3o para um jantar comunit\u00e1rio. Naquela noite, todo o morro se reuniu na pra\u00e7a pr\u00f3xima \u00e0 po\u00e7a de \u00e1gua para comemorar. S\u00f4nia foi convidada para falar, e disse, com voz emocionada: &#8220;Eu n\u00e3o conseguiria isso sem os meus pais, que trabalharam duro todos os dias, e sem a comunidade do morro, que sempre nos ajudou. Quero usar o que aprender para ajudar a todos voc\u00eas &#8211; para que ningu\u00e9m tenha que passar por crises de asma sem m\u00e9dico, para que todos tenham acesso \u00e0 sa\u00fade&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Os aplausos foram enormes, e um dos moradores, que tinha uma guitarra, come\u00e7ou a tocar m\u00fasicas populares. Alayde dan\u00e7ou com Luiz &#8211; a primeira vez em anos que eles dan\u00e7avam juntos &#8211; e ela sentiu que a asma tinha desaparecido, que a coluna n\u00e3o do\u00eda mais. &#8220;Hoje \u00e9 o melhor dia da minha vida&#8221;, disse ela a Luiz. &#8220;Nossos sacrif\u00edcios valeram a pena&#8221;. Luiz sorriu: &#8220;Ainda tem mais dias bons pela frente, meu amor. Os filhos est\u00e3o s\u00f3 come\u00e7ando&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na semana seguinte, S\u00f4nia foi matricular-se na faculdade. Luiz e Alayde foram com ela &#8211; foi a primeira vez que eles entravam em uma universidade. Eles olharam para os pr\u00e9dios altos, para os alunos com livros na m\u00e3o, e sentiram uma emo\u00e7\u00e3o que n\u00e3o podiam explicar. S\u00f4nia matriculou-se no curso, e o funcion\u00e1rio da secretaria deu-lhe um pacote com livros e materiais. Quando sa\u00edram da universidade, S\u00f4nia abra\u00e7ou os pais: &#8220;Eu prometo estudar muito. Para voc\u00eas, para o morro, para todos&#8221;. Luiz agarrou os livros com cuidado &#8211; eles eram pesados, mas para ele, eram mais leves que a esperan\u00e7a que eles traziam.<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>CAP\u00cdTULO 18: O PRIMEIRO EMPREGO DE CARLOS E A CHEGADA DA PRIMEIRA NETA<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>Enquanto S\u00f4nia come\u00e7ava os estudos na faculdade, Carlos, com dezesseis anos, estava terminando o curso de T\u00e9cnico em Eletr\u00f4nica em uma escola t\u00e9cnica p\u00fablica. Ele tinha estudado duro todos os dias, ap\u00f3s o col\u00e9gio, e tinha um dom especial para consertar aparelhos &#8211; j\u00e1 consertava r\u00e1dios e televisores dos vizinhos do morro para ganhar um dinheiro extra. Um dia, ele viu um an\u00fancio de emprego em uma loja de eletr\u00f4nicos no centro de Niter\u00f3i: &#8220;T\u00c9CNICO EM ELETR\u00d4NICA &#8211; VAGA PARA INICIANTE&#8221;. Ele resolveu tentar, mesmo com medo de n\u00e3o ser aceito.<\/div><div> <\/div><div>A entrevista foi no dia seguinte. Carlos vestiu a \u00fanica roupa social que tinha &#8211; uma camisa de gola e cal\u00e7as pretas que Alayde tinha consertado &#8211; e foi at\u00e9 a loja. O dono da loja, Sr. Jo\u00e3o, perguntou sobre seus estudos e suas experi\u00eancias. Carlos contou sobre os aparelhos que consertava no morro, e Sr. Jo\u00e3o pediu que ele consertasse um r\u00e1dio que estava quebrado. Carlos consertou-o em menos de dez minutos, e Sr. Jo\u00e3o sorriu: &#8220;Voc\u00ea tem talento. Come\u00e7a na semana que vem &#8211; sal\u00e1rio de R$ 150 por m\u00eas, e hor\u00e1rio de 8 \u00e0s 18 horas&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Carlos voltou ao morro correndo e gritou a not\u00edcia na porta da casa: &#8220;Papai! Mam\u00e3e! Eu consegui o emprego!&#8221; Luiz e Alayde sa\u00edram correndo e abra\u00e7aram o filho. &#8220;Meu filho, voc\u00ea \u00e9 um homem agora&#8221;, disse Luiz, com orgulho nos olhos. &#8220;Conseguiu o primeiro emprego formal da fam\u00edlia&#8221;. Alayde chorou de alegria: &#8220;Voc\u00ea vai conseguir tudo o que quiser, Carlos. Eu sempre soube&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>O primeiro dia de trabalho de Carlos foi um dia de grande emo\u00e7\u00e3o. Ele vestiu a roupa social, pegou o \u00f4nibus para o centro e chegou \u00e0 loja com dez minutos de anteced\u00eancia. Sr. Jo\u00e3o mostrou-lhe o local de trabalho e os aparelhos que precisavam ser consertados. Carlos trabalhou com dedica\u00e7\u00e3o, e no final do dia, Sr. Jo\u00e3o disse: &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 fazendo um \u00f3timo trabalho, Carlos. Vou aumentar o seu sal\u00e1rio daqui a tr\u00eas meses&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na mesma semana, S\u00f4nia anunciou uma not\u00edcia que deixou toda a fam\u00edlia emocionada: estava gr\u00e1vida. &#8220;Vamos ter uma neta!&#8221;, disse ela, olhando para os pais. Alayde abra\u00e7ou-a com for\u00e7a: &#8220;Minha primeira neta! Eu vou cuidar dela todos os dias!&#8221; Luiz sorriu: &#8220;Nossa fam\u00edlia est\u00e1 crescendo. Que felicidade&#8221;. Carlos prometeu consertar um ber\u00e7o de beb\u00ea que tinha encontrado em uma feira, e Elizabeth prometeu escrever hist\u00f3rias para a neta. Ricardo, com onze anos, disse: &#8220;Eu vou ser o melhor tio do mundo!&#8221;<\/div><div> <\/div><div>Os meses seguintes foram cheios de alegria e preparativos. Carlos consertou o ber\u00e7o e pintou-o de azul claro; Alayde fez roupas de beb\u00ea com pano sobrante; Elizabeth escreveu uma hist\u00f3ria chamada &#8220;A Menina do Morro e o Mar&#8221;; e S\u00f4nia continuou os estudos na faculdade, com a ajuda dos irm\u00e3os que ajudavam com as tarefas da casa.<\/div><div> <\/div><div>Em mar\u00e7o de 1984, Mariana &#8211; a primeira neta &#8211; nasceu. Luiz e Alayde foram ao hospital para ver a beb\u00ea, e quando Luiz segurou ela em seus bra\u00e7os, sentiu uma emo\u00e7\u00e3o que nunca tinha sentido antes. A neta tinha cabelos castanhos e olhos castanhos, igual a S\u00f4nia. &#8220;Ela \u00e9 perfeita&#8221;, disse ele, beijando a testa da beb\u00ea. Alayde agarrou a neta e chorou: &#8220;Minha pequena Mariana. Voc\u00ea vai ter uma vida cheia de amor e oportunidades&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na volta ao morro, todos os vizinhos estavam esperando para dar parab\u00e9ns. A casa estava decorada com flores, e Dona Maria trouxe um bolo de chocolate. S\u00f4nia colocou a beb\u00ea na ber\u00e7o que Carlos tinha consertado, e toda a fam\u00edlia se reuniu ao redor dela. Luiz olhou para a neta, para os filhos, para Alayde, e pensou: &#8220;Tudo o que n\u00f3s fizemos &#8211; a luta, a casa, os sacrif\u00edcios &#8211; foi para isso. Para ver a nova gera\u00e7\u00e3o crescer, feliz e com esperan\u00e7a&#8221;.<\/div><div>CAP\u00cdTULO 19: A FORMATURA DE ELIZABETH COMO PROFESSORA E O GRUPO DE LEITURA QUE UNIU O MORRO<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>Enquanto Mariana crescia, rindo e brincando pelo morro, Elizabeth estava terminando o curso de Letras na UFF &#8211; ela tinha conseguido aprova\u00e7\u00e3o no vestibular dois anos ap\u00f3s S\u00f4nia, gra\u00e7as ao apoio da fam\u00edlia e aos livros que emprestava da escola. Seus dias eram corridos: estudava pela manh\u00e3, ajudava a cuidar de Mariana \u00e0 tarde, e \u00e0 noite, lia para os irm\u00e3os e para os vizinhos que queriam aprender a decifrar palavras. &#8220;A leitura \u00e9 a chave para o mundo&#8221;, dizia ela sempre. &#8220;Quem sabe ler, nunca est\u00e1 s\u00f3&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>A formatura foi em dezembro de 1989 &#8211; um dia de sol quente, com toda a fam\u00edlia presente. Elizabeth vestiu a toga preta e a barra vermelha, e quando subiu ao palco para pegar o diploma, viu Luiz e Alayde no primeiro fileira, chorando de alegria. Carlos filmava tudo com uma c\u00e2mera que tinha consertado e comprado com o sal\u00e1rio do trabalho; S\u00f4nia estava com Mariana no colo, e a pequena batia as m\u00e3os; Ricardo, com dezesseis anos, gritava &#8220;Parab\u00e9ns, irm\u00e3!&#8221; t\u00e3o alto que todos ao redor olharam.<\/div><div> <\/div><div>Ao receber o diploma, Elizabeth falou em seu discurso: &#8220;Eu devo tudo isso aos meus pais, que nunca aprenderam a ler, mas que sempre souberam o valor da educa\u00e7\u00e3o. E aos moradores deste morro, que me ensinaram que a comunidade \u00e9 mais forte que qualquer obst\u00e1culo. Hoje, sou professora &#8211; e minha primeira tarefa \u00e9 ensinar a ler e a escrever a todos os que querem aprender, aqui mesmo no morro&#8221;. Os aplausos foram enormes, e Luiz se levantou e gritou &#8220;Minha filha! A melhor professora do mundo!&#8221; &#8211; algo que nunca tinha feito em p\u00fablico, t\u00e3o t\u00edmido que era.<\/div><div> <\/div><div>Na semana seguinte, Elizabeth anunciou a cria\u00e7\u00e3o do &#8220;Grupo de Leitura do Morro&#8221;. Ela alugou um espa\u00e7o pequeno na base do morro &#8211; uma sala vazia que um vizinho deixou de gra\u00e7a &#8211; e pediu livros emprestados \u00e0 escola onde trabalhava e \u00e0 biblioteca p\u00fablica. Os primeiros dias foram dif\u00edceis: poucas pessoas apareceram, com medo de n\u00e3o saber ler, de ser ridicularizadas. Mas Elizabeth foi paciente &#8211; ela convidou as mulheres do morro para tomar ch\u00e1 e falar de hist\u00f3rias, convidou as crian\u00e7as para brincar de &#8220;adivinhar letras&#8221;, e aos homens, para ler jornais sobre futebol e obras.<\/div><div> <\/div><div>R\u00e1pido, o grupo cresceu. Alayde foi uma das primeiras a participar &#8211; ela queria aprender a ler para entender as cartas que Mariana escrevia quando crescesse. &#8220;Eu quero ler a hist\u00f3ria que Elizabeth escreveu para ela&#8221;, disse ela, com l\u00e1grimas nos olhos. Luiz tamb\u00e9m se juntou &#8211; ele queria aprender a escrever seu nome direito, para assinar contratos de obra e n\u00e3o mais ser enganado por patr\u00f5es. &#8220;A minha filha vai me ensinar o que eu nunca aprendi&#8221;, disse ele, sorrindo.<\/div><div> <\/div><div>Um m\u00eas depois, o grupo de leitura j\u00e1 tinha mais de trinta participantes. Elizabeth ensinava com paci\u00eancia, usando hist\u00f3rias que refletiam a vida do morro &#8211; sobre trabalho, amor, luta e esperan\u00e7a. Uma tarde, Alayde conseguiu ler a primeira frase de um livro: &#8220;A casa \u00e9 feita de amor&#8221;. Ela parou, olhou para Elizabeth e chorou: &#8220;Eu consegui! Filha, eu consegui ler!&#8221; Todos aplaudiram, e Luiz abra\u00e7ou-a: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 a mulher mais forte que eu j\u00e1 conheci&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na noite de Natal de 1989, o grupo de leitura organizou uma apresenta\u00e7\u00e3o: as crian\u00e7as leram hist\u00f3rias que tinham escrito, as mulheres cantaram m\u00fasicas que tinham aprendido, e os homens leram frases sobre o que o morro significava para eles. Mariana, com cinco anos, leu a hist\u00f3ria que Elizabeth tinha escrito para ela: &#8220;A Menina do Morro e o Mar&#8221;. Quando terminou, toda a sala ficou em sil\u00eancio, depois explodiu em aplausos. Luiz olhou para Elizabeth, para Alayde, para os filhos e para a neta, e pensou: &#8220;N\u00f3s constru\u00edmos uma casa de madeira e barro, mas Elizabeth construiu algo maior &#8211; um lugar de palavras e esperan\u00e7a, que vai durar para sempre&#8221;.<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>CAP\u00cdTULO 20: O DESAFIO DE RICARDO E A FOR\u00c7A DA FAM\u00cdLIA JUNTA<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>Enquanto S\u00f4nia trabalhava como enfermeira no centro de Niter\u00f3i e Elizabeth lecionava no morro, Ricardo, o ca\u00e7ula, estava passando por um momento dif\u00edcil. Tinha dezoito anos, e ao contr\u00e1rio dos irm\u00e3os, n\u00e3o sabia o que queria fazer da vida. Ele tinha tentado cursar T\u00e9cnico em Mec\u00e2nica, mas abandonou &#8211; n\u00e3o conseguia se adaptar ao hor\u00e1rio e sentia que n\u00e3o era o que queria. Tentou trabalhar em obras com o pai, mas a fraqueza nos pulm\u00f5es n\u00e3o permitia &#8211; ele ficava sem ar depois de pouco tempo de esfor\u00e7o. &#8220;Eu n\u00e3o sou forte como o pai, n\u00e3o sou inteligente como as irm\u00e3s&#8221;, disse ele um dia, sentado na porta da casa. &#8220;O que eu vou fazer da minha vida?&#8221;<\/div><div> <\/div><div>Luiz percebeu a tristeza do filho e resolveu falar com ele. Um s\u00e1bado de manh\u00e3, eles foram caminhar at\u00e9 a po\u00e7a de \u00e1gua, um lugar que sempre tinham gostado de ir juntos. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o precisa ser como n\u00f3s, meu filho&#8221;, disse Luiz, sentando-se em uma pedra. &#8220;Cada pessoa tem o seu caminho. O meu foi a madeira, o de S\u00f4nia foi a sa\u00fade, o de Carlos foi a eletr\u00f4nica, o de Elizabeth foi as palavras &#8211; o seu vai ser algo que s\u00f3 voc\u00ea sabe&#8221;. Ricardo olhou para o pai: &#8220;Mas eu n\u00e3o sei o que \u00e9, papai. Eu me sinto in\u00fatil&#8221;. Luiz abra\u00e7ou-o: &#8220;Ningu\u00e9m \u00e9 in\u00fatil, meu amor. Voc\u00ea tem um cora\u00e7\u00e3o grande, e isso vale mais que qualquer profiss\u00e3o&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na semana seguinte, Ricardo resolveu ajudar Elizabeth no grupo de leitura. Ele come\u00e7o a ajudar as crian\u00e7as a escrever hist\u00f3rias, a arrumar os livros e a preparar o espa\u00e7o para as aulas. Aos poucos, ele percebeu que gostava de trabalhar com crian\u00e7as &#8211; de ver elas sorrir quando aprendiam uma nova letra, de ajudar elas a encontrar a sua voz. &#8220;Eu gosto de fazer as crian\u00e7as felizes&#8221;, disse ele a Elizabeth. &#8220;Talvez eu possa trabalhar com isso&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Elizabeth sorriu: &#8220;Voc\u00ea tem um dom com elas, irm\u00e3o. Por que n\u00e3o cursar Pedagogia? Para ser professor tamb\u00e9m, e ajudar meus&#8221;. Ricardo ficou indeciso &#8211; tinha medo de n\u00e3o conseguir passar no vestibular, de n\u00e3o ser bom o suficiente. Mas a fam\u00edlia se uniu para ajud\u00e1-lo: S\u00f4nia ajudava com as mat\u00e9rias de ci\u00eancias, Carlos com matem\u00e1tica, Elizabeth com portugu\u00eas, e Luiz e Alayde rezavam e incentivavam todos os dias. &#8220;Voc\u00ea consegue, Ricardo&#8221;, disse Alayde, acariciando a cabe\u00e7a do filho. &#8220;N\u00f3s temos f\u00e9 em voc\u00ea&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Ricardo estudou duro por um ano &#8211; acordava \u00e0s 5 da manh\u00e3 para estudar antes de ajudar Elizabeth no grupo de leitura, e estudava at\u00e9 tarde da noite. Um dia, ele fez uma prova simulada e conseguiu uma nota boa. &#8220;Eu posso conseguir&#8221;, disse ele, com esperan\u00e7a nos olhos. A fam\u00edlia comemorou, e Carlos prometeu comprar um livro de matem\u00e1tica novo para ele. &#8220;Voc\u00ea vai passar no vestibular, irm\u00e3o. Eu sei&#8221;, disse ele.<\/div><div> <\/div><div>Mas no dia da prova do vestibular, Ricardo teve uma crise de asma grave. Ele chegou \u00e0 sala de prova com dificuldade para respirar, e durante a prova, a crise piorou. Ele tentou continuar, mas n\u00e3o conseguiu &#8211; teve que sair da sala e ir ao hospital. Quando chegou em casa, triste e desanimado, disse: &#8220;Eu falhei. N\u00e3o consigo fazer nada direito&#8221;. Alayde abra\u00e7ou-o: &#8220;N\u00e3o falhou, meu amor. A crise foi um susto &#8211; voc\u00ea pode tentar novamente ano que vem&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>A fam\u00edlia se reuniu e decidiu ajudar Ricardo a se preparar para o pr\u00f3ximo vestibular, com mais cuidado com a sua sa\u00fade. S\u00f4nia, que era enfermeira, fez um plano de tratamento para a asma; Elizabeth ajustou o hor\u00e1rio do grupo de leitura para que ele pudesse estudar mais; e Luiz construiu uma pequena sala de estudo na casa, com uma janela que dava para o mar, para que ele tivesse um lugar tranquilo para estudar. &#8220;Aqui \u00e9 o seu espa\u00e7o&#8221;, disse Luiz, entregando a chave da sala. &#8220;Para sonhar e conseguir&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Um ano depois, Ricardo fez o vestibular novamente. Dessa vez, a crise de asma n\u00e3o veio &#8211; ele estava calmo, preparado, e com a fam\u00edlia torcendo por ele. Quando o resultado saiu, ele viu o seu nome na lista de aprovados em Pedagogia na UFF. Correu ao morro e gritou a not\u00edcia na porta da casa: &#8220;Eu passei! Eu passei!&#8221; Toda a fam\u00edlia abra\u00e7ou-o, e Alayde chorou: &#8220;Meu filho! Voc\u00ea conseguiu! Eu sempre soube que conseguiria!&#8221; Luiz beijou a testa do filho: &#8220;O seu caminho foi mais dif\u00edcil, mas voc\u00ea foi forte. Igual a n\u00f3s&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Naquele momento, Ricardo percebeu que n\u00e3o estava sozinho &#8211; a fam\u00edlia era a sua for\u00e7a, o seu suporte. E que o seu caminho, mesmo que diferente dos irm\u00e3os, era importante. &#8220;Vou ser professor para ajudar as crian\u00e7as do morro, igual a Elizabeth&#8221;, disse ele. &#8220;Para mostrar a elas que, mesmo com dificuldades, \u00e9 poss\u00edvel conseguir&#8221;.<\/div><div>CAP\u00cdTULO 21: MAIS NETOS, BISAV\u00d3S E A CASA CHEIA DE VIDA<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>Os anos se desenrolaram como um rio calmo, e a fam\u00edlia de Luiz e Alayde cresceu cada vez mais. Em 1992, Carlos se casou com Mariana &#8211; uma mo\u00e7a do morro que trabalhava em uma loja de roupas &#8211; e um ano depois, sua filha Carla Rafaela nasceu. Alayde segurou a segunda neta em seus bra\u00e7os e sorriu: &#8220;Outra pequena princesa. Nossa casa est\u00e1 ficando cheia de amor&#8221;. Luiz, que j\u00e1 tinha sessenta anos, construiu uma ber\u00e7o para Carla &#8211; igual ao que tinha feito para Carlos, mas com madeira mais resistente e detalhes que ele havia aprendido ao longo dos anos. &#8220;Eu quero que ela use isso quando tiver filhos&#8221;, disse ele, olhando para a ber\u00e7o.<\/div><div> <\/div><div>Em 1995, Elizabeth se casou com Jo\u00e3o &#8211; um professor que trabalhava com ela no grupo de leitura &#8211; e sua primeira filha, Sarabeth, nasceu. Luiz e Alayde foram ao hospital para ver a neta, e quando Alayde segurou ela, percebeu que Sarabeth tinha cabelos ruivos e olhos castanhos claros &#8211; igual a Elizabeth quando era pequena. &#8220;Ela \u00e9 a c\u00f3pia da sua m\u00e3e&#8221;, disse ela a Sarabeth, que deu um suspiro e dormiu. Ricardo, que estava cursando o terceiro ano de Pedagogia, prometeu ensinar a neta a ler quando ela crescesse: &#8220;Vou fazer ela amar palavras, igual a tia Elizabeth&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>A casa do morro estava agora cheia de crian\u00e7as &#8211; Mariana (dez anos), Carla (dois anos) e Sarabeth (um ano) corriam pelo piso de terra, brincavam com brinquedos que Carlos consertava e ouv\u00edam hist\u00f3rias que Elizabeth escrevia. Alayde passava horas com elas, contando hist\u00f3rias de Aldeia Velha e de Manhua\u00e7u, ensinando elas a fazer p\u00e3o de queijo com farinha de mandioca e a cantar m\u00fasicas populares que ela aprendera na inf\u00e2ncia. &#8220;Eu nunca imaginei ter tanta felicidade&#8221;, disse ela a Luiz um dia, enquanto as netas dormiam em seus bra\u00e7os. &#8220;Tudo o que n\u00f3s passamos valia a pena&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Em 2010, Sarabeth, com quinze anos, anunciou que estava gr\u00e1vida. A not\u00edcia foi uma surpresa, mas a fam\u00edlia aceitou com amor &#8211; Elizabeth abra\u00e7ou a filha e disse: &#8220;N\u00f3s vamos ajudar voc\u00ea, filha. Sempre&#8221;. Luiz e Alayde ficaram emocionados: iam ser bisav\u00f3s. &#8220;Uma nova gera\u00e7\u00e3o&#8221;, disse Luiz, sorrindo. &#8220;O nosso legado vai continuar&#8221;. Em novembro daquele ano, Elick &#8211; o primeiro bisneto &#8211; nasceu. Luiz, com setenta e sete anos, segurou o pequeno beb\u00ea em seus bra\u00e7os e sentiu uma emo\u00e7\u00e3o que n\u00e3o podia explicar. O bisneto tinha olhos azuis &#8211; igual a Ricardo &#8211; e cabelos castanhos, igual a S\u00f4nia. &#8220;Ele \u00e9 o nosso tesouro maior&#8221;, disse ele, beijando a testa de Elick.<\/div><div> <\/div><div>Dois anos depois, em 2012, Sarabeth teve outro filho &#8211; Italo. E em 2018, a terceira bisneta, Isis, nasceu. Agora, Luiz e Alayde tinham tr\u00eas bisnetos, e a casa do morro estava mais cheia do que nunca. Os finais de semana eram reservados para encontros familiares: todos vinham jantar, as crian\u00e7as brincavam no quintal que Luiz tinha arrumado, os filhos conversavam sobre o trabalho e a vida, e Luiz e Alayde ficavam deitados na cama, ouvindo o barulho de alegria que enchia a casa.<\/div><div> <\/div><div>Um domingo de ver\u00e3o, toda a fam\u00edlia se reuniu no quintal. Elick (oito anos), Italo (seis anos) e Isis (dois anos) brincavam com uma bola que Carlos tinha consertado; Mariana, com vinte e cinco anos, estava com o seu pr\u00f3prio filho no colo; Carla, com vinte anos, estudava para o vestibular de Arquitetura; Sarabeth, com vinte e tr\u00eas anos, ajudava Elizabeth a preparar o jantar. Luiz estava sentado em uma cadeira que constru\u00edra para Alayde, e ela estava ao seu lado, acariciando a m\u00e3o dele. &#8220;Olha tudo o que n\u00f3s constru\u00edmos, Luiz&#8221;, disse ela. &#8220;Uma fam\u00edlia grande, feliz, com sonhos. Isso \u00e9 o que importa&#8221;. Luiz sorriu e olhou para a fam\u00edlia: &#8220;Sim, meu amor. N\u00f3s constru\u00edmos mais do que uma casa &#8211; constru\u00edmos um lar&#8221;.<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div> <\/div><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CAP\u00cdTULO 17: A APROVA\u00c7\u00c3O DE S\u00d4NIA NA FACULDADE E A ALEGRIA QUE ILUMINOU O MORRO O ver\u00e3o de 1983 foi o mais esperado da fam\u00edlia. S\u00f4nia, com dezoito anos, tinha feito o vestibular para a faculdade de Enfermagem da Universidade Federal Fluminense (UFF) &#8211; o \u00fanico curso p\u00fablico de enfermagem da regi\u00e3o, e a \u00fanica [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1],"tags":[21],"class_list":["post-99","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","tag-livros"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/phgeRL-1B","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=99"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/biobit.online\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":108,"href":"https:\/\/biobit.online\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/99\/revisions\/108"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=99"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=99"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/fr\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=99"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}