{"id":97,"date":"2026-05-18T03:31:18","date_gmt":"2026-05-18T03:31:18","guid":{"rendered":"https:\/\/biobit.online\/?p=97"},"modified":"2026-05-18T03:42:12","modified_gmt":"2026-05-18T03:42:12","slug":"97-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/biobit.online\/ar\/97-2\/","title":{"rendered":"O Sonho que o Amor Construiu"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CAP\u00cdTULO 12: O DRAMA NA OBRA E O DIA QUE A LUZ CHEGOU AO MORRO<div> <\/div><div> <\/div><div>Luiz trabalhava em uma obra de edif\u00edcio alto no centro do Rio &#8211; o trabalho era perigoso, sem equipamentos de seguran\u00e7a, e o patr\u00e3o era duro. Um dia, em outubro de 1971, ele estava no quinto andar, colocando prancha de madeira para fazer o piso, quando a corda que segurava a prancha se rompeu. A prancha deslizou, e Luiz quase caiu de cabe\u00e7a &#8211; s\u00f3 conseguiu se agarrar a um batente de concreto com as m\u00e3os, que ficaram raspadas at\u00e9 sangrar. Os colegas de obra correram para ajud\u00e1-lo, puxando-o para dentro do andar. &#8220;Voc\u00ea quase morreu, Luiz&#8221;, disse Jo\u00e3o Carlos, com voz tremida. Luiz olhou para o ch\u00e3o, que estava cinco andares abaixo, e sentiu um frio na espinha. &#8220;O Senhor me deu mais uma chance&#8221;, murmurou ele.<\/div><div> <\/div><div>Ele chegou em casa com as m\u00e3os vendadas e a perna machucada. Alayde viu ele e chorou: &#8220;O que aconteceu? Voc\u00ea est\u00e1 bem?&#8221; Luiz abra\u00e7ou-a: &#8220;Estou bem, meu amor. Foi um susto. Mas estou aqui&#8221;. Os filhos correram at\u00e9 ele, e Carlos, com quatro anos, tocou suavemente na m\u00e3o vendada: &#8220;Papai, d\u00f3i?&#8221; Luiz sorriu: &#8220;N\u00e3o, meu filho. J\u00e1 passou&#8221;. Mas ele sabia que n\u00e3o podia parar de trabalhar &#8211; os m\u00e9dicos disseram que ele tinha que descansar por pelo menos uma semana, mas ele voltou \u00e0 obra no dia seguinte. &#8220;N\u00e3o temos dinheiro para descansar&#8221;, disse ele a Alayde, que n\u00e3o conseguiu convenc\u00ea-lo de mais nada.<\/div><div> <\/div><div>Na obra, o patr\u00e3o n\u00e3o quis pagar o sal\u00e1rio da semana que Luiz tinha trabalhado antes do acidente &#8211; &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o terminou a tarefa&#8221;, disse ele. Luiz tentou reivindicar, mas como n\u00e3o tinha contrato escrito, n\u00e3o adiantou. Ele voltou em casa sem dinheiro, furioso e desesperado. &#8220;N\u00e3o consigo mais&#8221;, disse ele, sentando-se no ch\u00e3o da casa. &#8220;N\u00e3o consigo mais trabalhar para um patr\u00e3o que n\u00e3o me respeita, para viver em um lugar sem \u00e1gua e sem luz&#8221;. Alayde se ajoelhou ao lado dele e agarrou suas m\u00e3os: &#8220;N\u00e3o desista, Luiz. N\u00f3s somos fortes. Juntos, somos fortes&#8221;. Ela saiu da casa e voltou com um saco de arroz que tinha pedido emprestado ao vizinho. &#8220;Hoje, comemos arroz. Amanh\u00e3, encontraremos uma forma de ter mais&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Um m\u00eas depois, uma not\u00edcia boa chegou ao morro: a Companhia Energ\u00e9tica estava prestes to dar luz el\u00e9trica aos moradores. Luiz e os outros vizinhos trabalharam juntos para colocar os postes e os fios &#8211; eles n\u00e3o tinham experi\u00eancia, mas aprenderam com um t\u00e9cnico que veio ajudar. No dia 25 de dezembro de 1971, a luz chegou. Luiz ligou o interruptor da casa, e a sala encheu de luz branca &#8211; os filhos gritaram de alegria, e Alayde chorou de emo\u00e7\u00e3o. &#8220;Natal chegou cedo este ano&#8221;, disse ela, abra\u00e7ando o marido. Elizabeth, que tinha um ano, riu e bateu as m\u00e3os, encantada com a luz.<\/div><div> <\/div><div>Naquela noite, eles comiam arroz com feij\u00e3o que Luiz conseguiu comprar com o sal\u00e1rio que o novo patr\u00e3o (um homem mais justo) tinha pago. S\u00f4nia pegou o livro que emprestou da professora e come\u00e7ou a ler &#8211; j\u00e1 sabia algumas palavras &#8211; e os outros ouviram, com a luz acesa, na casa que constru\u00edram com as pr\u00f3prias m\u00e3os. Luiz olhou para a fam\u00edlia e pensou: &#8220;O acidente na obra foi um susto, mas a luz veio para nos dar esperan\u00e7a. Amanh\u00e3, vai ser um dia melhor&#8221;.<\/div><div>CAP\u00cdTULO 13: O NASCIMENTO DE RICARDO ELIAS E O CARINHO DO CA\u00c7ULA<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>Em in\u00edcio de 1973, Alayde descobriu que estava gr\u00e1vida de quarto vez. Dessa vez, a not\u00edcia veio com um toque de surpresa &#8211; j\u00e1 tinham tr\u00eas filhos, e a casa estava mais apertada do que nunca, mas a alegria de receber outro beb\u00ea era maior que qualquer preocupa\u00e7\u00e3o. &#8220;O ca\u00e7ula&#8221;, disse Luiz, acariciando o ventre de Alayde. &#8220;Vai ser o nosso tesouro, o que vai nos fazer rir quando tudo estiver dif\u00edcil&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Os meses do quarto parto foram mais calmos do que os anteriores &#8211; a luz el\u00e9trica ajudava a Alayde a se cuidar durante a noite, e Luiz tinha conseguido um trabalho com um patr\u00e3o mais justo, que pagava a hora e deixava ele ir para casa mais cedo. S\u00f4nia, com oito anos, j\u00e1 era uma ajudante de m\u00e3es: lavava as roupas dos irm\u00e3os, preparava o caf\u00e9 da manh\u00e3 e ajudava a Alayde a buscar \u00e1gua. Carlos, com seis anos, gostava de ajudar o pai a fazer pequenas reparos na casa &#8211; &#8220;Quero ser carpinteiro igual a papai&#8221;, dizia ele, segurando uma pequena p\u00e1 que Luiz tinha feito para ele. Elizabeth, com dois anos, caminhava por toda a casa, falando palavras simples e fazendo todos rirem.<\/div><div> <\/div><div>Em junho de 1973, Alayde entrou em trabalho de parto durante o dia. Dessa vez, a rua do morro estava seca, e Luiz conseguiu pegar um carro de um vizinho que tinha uma motocicleta com carrinho para levar ela \u00e0 cl\u00ednica popular. A viagem foi r\u00e1pida, e o parto foi mais tranquilo &#8211; depois de tr\u00eas horas, Ricardo Elias nasceu, pequeno e fr\u00e1gil, com cabelos castanhos e olhos azuis (um milagre, disse Alayde, pois ningu\u00e9m na fam\u00edlia tinha olhos azuis). Luiz segurou o beb\u00ea em seus bra\u00e7os e sentiu um amor que nunca tinha sentido antes &#8211; o amor pelo ca\u00e7ula, o \u00faltimo filho que eles teriam. &#8220;Ele \u00e9 pequeno, mas vai ser forte&#8221;, disse ele, beijando a testa do menino.<\/div><div> <\/div><div>Quando chegaram em casa, os irm\u00e3os esperavam ansiosos. S\u00f4nia olhou para o beb\u00ea e sorriu: &#8220;Ele \u00e9 t\u00e3o pequeno! Vou cuidar de voc\u00ea, Ricardo&#8221;. Carlos tentou tocar o pequeno dedo de Ricardo e riu: &#8220;Ele me aperta a m\u00e3o!&#8221; Elizabeth, curiosa, chegou perto e deu um beijo no rosto do irm\u00e3o &#8211; Ricardo deu um suspiro e dormiu. Alayde ficou deitada na cama, olhando para os quatro filhos, e sentiu uma felicidade que apagou toda a dor do trabalho de parto. &#8220;Nossa fam\u00edlia est\u00e1 completa&#8221;, disse ela a Luiz, que abra\u00e7ou-a.<\/div><div> <\/div><div>Mas os desafios com o ca\u00e7ula vieram r\u00e1pido. Ricardo tinha problemas de sa\u00fade desde o nascimento &#8211; tossia com frequ\u00eancia, e os m\u00e9dicos disseram que ele tinha uma fraqueza nos pulm\u00f5es, igual a m\u00e3e. Alayde teve que levar ele ao m\u00e9dico v\u00e1rias vezes por m\u00eas, caminhando at\u00e9 a base do morro com o beb\u00ea no colo, mesmo que a coluna doente doesse. O dinheiro para os rem\u00e9dios era escasso &#8211; Luiz teve que trabalhar horas extras na obra, e Alayde parou de trabalhar como bab\u00e1 para cuidar de Ricardo. Eles come\u00e7aram a comer apenas arroz e feij\u00e3o novamente, e S\u00f4nia teve que deixar de ir \u00e0 escola por alguns dias para ajudar a m\u00e3e em casa.<\/div><div> <\/div><div>Um dia, Ricardo teve uma crise de asma grave. Alayde n\u00e3o tinha rem\u00e9dios, e o vizinho com a motocicleta n\u00e3o estava em casa. Luiz estava na obra, e ela n\u00e3o conseguiu ligar para ele. Desesperada, ela agarrou o beb\u00ea e correu pela rua do morro at\u00e9 a base, onde havia uma farm\u00e1cia. Chegada l\u00e1, ela pediu um rem\u00e9dio barato, mas n\u00e3o tinha dinheiro para pagar. A dona da farm\u00e1cia, compadecida com a cena &#8211; uma mulher cansada, com o beb\u00ea tossindo em seus bra\u00e7os &#8211; deu o rem\u00e9dio de gra\u00e7a. &#8220;Ele vai ficar bem&#8221;, disse ela. Alayde chorou de gratid\u00e3o e voltou para casa, administrando o rem\u00e9dio ao beb\u00ea. Quando Ricardo parou de tossir e dormiu tranquilo, ela abra\u00e7ou-o e prometeu: &#8220;Nunca vou deixar nada acontecer com voc\u00ea, meu amor. Nada&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na noite, Luiz chegou em casa e soube do que havia acontecido. Ele agarrou a m\u00e3o de Alayde e disse: &#8220;Vou conseguir dinheiro para os rem\u00e9dios. Vou construir mais coisas, trabalhar mais &#8211; tudo o que for preciso para que ele fique bem&#8221;. E naquele momento, os quatro filhos dormiam juntos na cama, e a casa, apesar de pequena e simples, estava cheia de amor.<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>CAP\u00cdTULO 14: A CHUVA QUE DESTRUIU A PO\u00c7A E O ESP\u00cdRITO DA COMUNIDADE NO MORRO<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>Em fevereiro de 1974, uma chuva forte chegou a Niter\u00f3i &#8211; a maior que o morro tinha visto em anos. A \u00e1gua caiu com for\u00e7a suficiente para arrancar \u00e1rvores e pedra, e a rua de terra ficou um rio de lama. Luiz e Alayde fecharam as janelas da casa e esperaram, com os filhos em seus bra\u00e7os, temendo que a casa desabasse. &#8220;A casa \u00e9 feita de madeira e barro &#8211; vai aguentar?&#8221; perguntou Alayde, com medo nos olhos. Luiz agarrou seu machado e disse: &#8220;Se ela desabar, construiremos outra. Juntos&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>A chuva durou tr\u00eas dias. Quando parou, Luiz saiu da casa e viu o estrago: a po\u00e7a de \u00e1gua que ele tinha constru\u00eddo estava destru\u00edda, arrancada pela lama; algumas casas vizinhas tinham paredes rachadas; e a rua estava impass\u00e1vel, com pedras e mato em todo lugar. O pior de tudo: a fonte de \u00e1gua na base do morro estava contaminada pela lama, e n\u00e3o havia \u00e1gua pot\u00e1vel para ningu\u00e9m. &#8220;O que vamos fazer? N\u00e3o temos \u00e1gua para beber, para cozinhar&#8221;, disse Alayde, quando viu o que tinha acontecido.<\/div><div> <\/div><div>Mas naquele momento, o esp\u00edrito da comunidade do morro apareceu. Um vizinho, Sr. Ant\u00f4nio, reuniu todos os moradores e disse: &#8220;Juntos, conseguimos tudo. Vamos limpar a rua, consertar a fonte e construir uma nova po\u00e7a de \u00e1gua &#8211; maior e mais forte&#8221;. Luiz se juntou a ele imediatamente, e os outros seguiram. Os homens limpavam a rua com p\u00e1 e rodo, as mulheres cozinhavam arroz e feij\u00e3o para todos (com a \u00e1gua que tinham guardado), e as crian\u00e7as ajudavam a levar pedra e terra. S\u00f4nia, com nove anos, ajudava a levar \u00e1gua para os homens que trabalhavam, e Carlos, com sete anos, ajudava a carregar pequenas pedras.<\/div><div> <\/div><div>Durante uma semana, todos trabalharam juntos. Luiz foi o chefe da constru\u00e7\u00e3o da nova po\u00e7a &#8211; usou madeira e pedra para fazer uma estrutura mais forte, que resistisse a chuvas fortes. Alayde ajudava a cozinhar e a cuidar das crian\u00e7as que estavam trabalhando. Quando a po\u00e7a foi terminada e a chuva chegou novamente, ela encheu de \u00e1gua limpa &#8211; todos gritaram de alegria, e Sr. Ant\u00f4nio disse: &#8220;Isso \u00e9 o que a comunidade faz. Juntos, somos mais fortes do que qualquer chuva&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>A po\u00e7a de \u00e1gua virou um ponto de encontro para o morro. Todos iam l\u00e1 para buscar \u00e1gua, e ali conversavam, trocavam not\u00edcias e ajudavam uns aos outros. Um dia, uma fam\u00edlia nova chegou ao morro &#8211; um casal com dois filhos, que vinha de Pernambuco. Eles n\u00e3o tinha nada, e Luiz e Alayde deram-lhes arroz, feij\u00e3o e um lugar para dormir na sua casa at\u00e9 que conseguissem construir a pr\u00f3pria. &#8220;N\u00f3s sabemos o que \u00e9 chegar em um lugar novo e n\u00e3o ter nada&#8221;, disse Alayde, abra\u00e7ando a mulher nova.<\/div><div> <\/div><div>Na noite que a po\u00e7a foi inaugurada, todos os moradores se reuniram para um jantar comunit\u00e1rio &#8211; com arroz, feij\u00e3o, feij\u00e3o tropeiro que algu\u00e9m conseguiu fazer e um bolo de farinha que Dona Maria preparou. Ricardo, com quase um ano, riu e bateu as m\u00e3os, e Elizabeth dan\u00e7ou com os outros crian\u00e7as. Luiz olhou para a comunidade, para a po\u00e7a de \u00e1gua que constru\u00edram juntos e para a sua fam\u00edlia, e pensou: &#8220;A vida no morro \u00e9 dif\u00edcil, mas temos a comunidade. E a comunidade \u00e9 como uma fam\u00edlia &#8211; nos ajuda quando tudo est\u00e1 dif\u00edcil&#8221;.<\/div><div>CAP\u00cdTULO 15: O PRIMEIRO DIA DE RICARDO NA ESCOLA E OS SONHOS QUE NOS LEVANTAM<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>Os anos passaram como o vento no morro &#8211; r\u00e1pido, forte, e deixando marcas. S\u00f4nia j\u00e1 estava no segundo ano do ensino m\u00e9dio, estudando para entrar na faculdade de Enfermagem; Carlos estava no \u00faltimo ano do fundamental, sonhando em ser t\u00e9cnico em Eletr\u00f4nica; Elizabeth, no quinto ano, lia tudo o que encontrava &#8211; livros emprestados da escola, jornais que os vizinhos deixavam, qualquer coisa com letras. E Ricardo, o ca\u00e7ula, estava prestes a entrar na primeira s\u00e9rie do fundamental &#8211; tinha seis anos, olhos azuis brilhantes e um sorriso que conquistava todo mundo, apesar da fraqueza nos pulm\u00f5es.<\/div><div> <\/div><div>O primeiro dia de escola de Ricardo foi um dia de grande emo\u00e7\u00e3o na fam\u00edlia. Alayde tinha preparado uma roupa nova para ele &#8211; uma camisa branca e cal\u00e7as azuis que ela tinha feito com pano sobrante de uma roupa de Elizabeth. S\u00f4nia ajudou a arrumar o cabelo do irm\u00e3o, e Carlos deu-lhe um l\u00e1pis novo que tinha ganho em um concurso da escola. &#8220;Voc\u00ea tem que ser um bom aluno, viu?&#8221; disse Carlos. &#8220;Para aprender muitas coisas e ter um futuro melhor&#8221;. Ricardo acenou com a cabe\u00e7a, um pouco assustado &#8211; a escola estava a quase um quil\u00f4metro do morro, e ele tinha que ir com Elizabeth e outras crian\u00e7as do bairro.<\/div><div> <\/div><div>Luiz, que tinha sa\u00eddo da obra mais cedo para ver o filho entrar na escola, esperava na porta da casa com o machado na m\u00e3o. &#8220;Papai vai te levar at\u00e9 a base do morro&#8221;, disse ele, pegando Ricardo no colo. A caminhada foi lenta &#8211; Ricardo queria ver tudo: as pedras na rua, as aves no c\u00e9u, a po\u00e7a de \u00e1gua que a comunidade tinha constru\u00eddo. Quando chegaram \u00e0 base, Elizabeth e as outras crian\u00e7as estavam esperando. Luiz colocou Ricardo no ch\u00e3o e beijou a testa dele: &#8220;Seja bravo, meu filho. Aprenda a ler e a escrever &#8211; isso vai abrir todas as portas para voc\u00ea&#8221;. Ricardo abra\u00e7ou as pernas do pai: &#8220;Vou, papai. E vou ler para voc\u00ea quando chegar em casa&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Na escola, Ricardo entrou na sala de aula com Elizabeth e se sentou em uma cadeira pequena. A professora, uma mulher jovem chamada Dona Clara, deu-lhe um caderno novo e um l\u00e1pis, e ensinou a escrever a letra &#8220;A&#8221;. Ricardo aprendeu r\u00e1pido &#8211; escreveu a letra com m\u00e3os pequenas mas firmes, e mostrou para Elizabeth: &#8220;Olha, irm\u00e3! Eu escrevi!&#8221; Elizabeth sorriu: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 muito inteligente, Ricardo&#8221;. No final do dia, quando chegaram em casa, Ricardo correu at\u00e9 o pai e mostrou o caderno: &#8220;Papai, olha a letra que eu escrevi!&#8221; Luiz agarrou o caderno com cuidado e olhou para a letra &#8220;A&#8221; &#8211; parecia pequena, mas para ele, era o maior tesouro do mundo. &#8220;Voc\u00ea vai ser o primeiro da fam\u00edlia a aprender a escrever desde pequeno&#8221;, disse ele, com orgulho nos olhos.<\/div><div> <\/div><div>Na noite, a fam\u00edlia se reuniu na mesa da cozinha &#8211; agora com uma mesa de madeira que Luiz tinha constru\u00eddo &#8211; e comeu arroz com feij\u00e3o e uma por\u00e7\u00e3o de batata frita que Alayde tinha conseguido fazer. S\u00f4nia falou sobre os estudos para a faculdade: &#8220;Quero ser enfermeira para ajudar as pessoas do morro, mam\u00e3e. Para que elas n\u00e3o tenham que passar por crises de asma sem m\u00e9dico, como voc\u00ea&#8221;. Alayde chorou de emo\u00e7\u00e3o e abra\u00e7ou a filha: &#8220;Voc\u00ea vai conseguir, filha. Vai ser a melhor enfermeira do mundo&#8221;. Carlos falou sobre o curso de Eletr\u00f4nica: &#8220;Quero consertar aparelhos eletr\u00f4nicos para ganhar dinheiro e ajudar a papai a construir uma casa maior&#8221;. Elizabeth, que estava lendo um livro, levantou a cabe\u00e7a: &#8220;Quero ser professora para ensinar a ler e a escrever a todos os crian\u00e7as do morro. Para que ningu\u00e9m tenha que passar pelo que papai e mam\u00e3e passaram&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Ricardo, que estava comendo batata frita, levantou a m\u00e3o: &#8220;E eu? O que eu vou ser?&#8221; Luiz sorriu e acariciou a cabe\u00e7a do filho: &#8220;Voc\u00ea pode ser o que quiser, meu amor. O importante \u00e9 que voc\u00ea siga seus sonhos&#8221;. Naquele momento, a luz da casa estava acesa, a \u00e1gua da po\u00e7a estava limpa, e os sonhos dos filhos pareciam mais pr\u00f3ximos do que nunca. Luiz olhou para Alayde e pensou: &#8220;Tudo o que n\u00f3s fizemos &#8211; a casa, a luta, os sacrif\u00edcios &#8211; foi para isso. Para que os filhos tenham sonhos e consigam cumpri-los&#8221;.<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>CAP\u00cdTULO 16: O DRAMA NA OBRA DO EDIF\u00cdCIO E A DOEN\u00c7A QUE PIORECEU EM ALAYDE<\/div><div> <\/div><div> <\/div><div>Em mar\u00e7o de 1980, Luiz estava trabalhando em uma obra de edif\u00edcio de dez andares no centro do Rio &#8211; o trabalho era a mais perigosa que ele j\u00e1 tinha feito, sem-grade de prote\u00e7\u00e3o e com materiais pesados que tinham que ser carregados manualmente. Um dia, ele estava no nono andar, carregando um saco de cimento de 50 quilos, quando o piso de prancha em que estava pisando se rompeu. Ele caiu de um metro de altura, e o saco de cimento caiu em cima da sua perna. Os colegas de obra correram para ajud\u00e1-lo, despejando o cimento e levando-o para baixo da obra. &#8220;Sua perna est\u00e1 rachada, Luiz&#8221;, disse Jo\u00e3o Carlos, com voz tremida. &#8220;Temos que levar voc\u00ea ao hospital&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Luiz foi levado ao hospital p\u00fablico, onde os m\u00e9dicos diagnosticaram uma fratura composta na perna direita. Eles colocaram uma gesso e disseram que ele tinha que descansar por pelo menos tr\u00eas meses &#8211; n\u00e3o podia trabalhar, n\u00e3o podia caminhar muito. Luiz ficou desesperado: &#8220;Como vou cuidar da fam\u00edlia se n\u00e3o trabalhar?&#8221; A factura do hospital era alta, e ele n\u00e3o tinha seguro de sa\u00fade. Os filhos, que tinham vindo ao hospital ver o pai, ficaram tristes &#8211; S\u00f4nia prometeu trabalhar como bab\u00e1 em horas vagas para ajudar a pagar as contas, e Carlos disse que iria pedir um emprego em uma loja de eletr\u00f4nicos.<\/div><div> <\/div><div>Enquanto Luiz estava deitado na cama, a sa\u00fade de Alayde piorou. As crises de asma eram mais frequentes e mais fortes, e o m\u00e9dico disse que ela precisava de um tratamento mais eficaz &#8211; um rem\u00e9dio caro que eles n\u00e3o podiam pagar. Alayde teve que parar de fazer quase tudo: n\u00e3o conseguia buscar \u00e1gua, n\u00e3o conseguia cozinhar, n\u00e3o conseguia cuidar de Ricardo. S\u00f4nia e Elizabeth assumiram as tarefas da casa &#8211; S\u00f4nia cozinhava e lavava roupas, Elizabeth buscava \u00e1gua e cuidava de Ricardo. &#8220;N\u00f3s vamos cuidar de voc\u00eas, mam\u00e3e&#8221;, disse S\u00f4nia. &#8220;Juntos, conseguimos tudo&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Um dia, Ricardo voltou da escola e viu a m\u00e3e deitada na cama, tossindo. Ele correu at\u00e9 ela e colocou a m\u00e3o na testa dela: &#8220;Mam\u00e3e, voc\u00ea est\u00e1 mal?&#8221; Alayde sorriu fraco e acariciou o rosto do filho: &#8220;Estou bem, meu amor. S\u00f3 estou cansada&#8221;. Ricardo pegou o caderno da escola e come\u00e7ou a ler uma hist\u00f3ria que tinha aprendido: &#8220;Havia uma vez um gato branco que vivia em uma casa grande&#8230;&#8221;. Alayde ouviu, com os olhos fechados, e sentiu uma paz que n\u00e3o sentia h\u00e1 tempos. Quando ele terminou de ler, ela disse: &#8220;Voc\u00ea l\u00ea muito bem, Ricardo. Eu sou muito orgulhosa de voc\u00ea&#8221;.<\/div><div> <\/div><div>Luiz, que estava deitado na outra cama, ouviu a leitura do filho e chorou de emo\u00e7\u00e3o. A perna do\u00eda, o dinheiro faltava, a sa\u00fade da esposa piorava &#8211; mas os filhos estavam fortes, unidos, e cumpriam os sonhos que eles tinham para eles. Naquela noite, ele falou com Alayde: &#8220;N\u00f3s passamos por muitas coisas, meu amor. Mas os filhos s\u00e3o o nosso tesouro. E eles v\u00e3o conseguir tudo o que n\u00f3s n\u00e3o conseguimos&#8221;. Alayde agarrou sua m\u00e3o: &#8220;Sim, Luiz. E n\u00f3s vamos estar aqui para ver&#8221;.<\/div><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CAP\u00cdTULO 12: O DRAMA NA OBRA E O DIA QUE A LUZ CHEGOU AO MORRO Luiz trabalhava em uma obra de edif\u00edcio alto no centro do Rio &#8211; o trabalho era perigoso, sem equipamentos de seguran\u00e7a, e o patr\u00e3o era duro. Um dia, em outubro de 1971, ele estava no quinto andar, colocando prancha de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[1],"tags":[21],"class_list":["post-97","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-blog","tag-livros"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/phgeRL-1z","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/ar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/ar\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/ar\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/ar\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/ar\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=97"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/biobit.online\/ar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":109,"href":"https:\/\/biobit.online\/ar\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/97\/revisions\/109"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/biobit.online\/ar\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=97"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/ar\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=97"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/biobit.online\/ar\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=97"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}